Fonte: UNFPA Palestine/Social Development Forum
Depois de mais de dois anos de guerra, deslocamento e crise humanitária, jovens na Faixa de Gaza enfrentam níveis alarmantes de depressão e ansiedade, enquanto cresce rapidamente o número de casamentos infantis e gestações precoces. O alerta é de uma nova análise do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).
Antes do conflito, o casamento infantil na Palestina vinha em queda — passando de 26% em 2009 para 11% em 2022. No entanto, dados coletados desde 2024 indicam uma reversão dessa tendência. Registros judiciais emergenciais apontam que, em apenas quatro meses de 2025, pelo menos 400 meninas entre 14 e 16 anos receberam autorização para se casar. Especialistas acreditam que o número real seja ainda maior, já que muitos casamentos ocorrem informalmente devido ao colapso dos sistemas de registro.
Segundo o UNFPA, o aumento está diretamente ligado às condições extremas impostas pela guerra. Famílias em situação de pobreza severa e deslocamento têm recorrido ao casamento como estratégia de sobrevivência ou proteção, muitas vezes sem o consentimento das meninas.
“Estamos testemunhando o desmantelamento do futuro de uma geração. Meninas não estão escolhendo se casar. Elas estão sendo empurradas para isso por fome, medo e deslocamento”
Nestor Owomuhangi, representante do UNFPA para o Estado da Palestina
O crescimento dos casamentos precoces vem acompanhado de um aumento significativo nas gestações na adolescência. As taxas de natalidade entre adolescentes mais que dobraram em relação ao período anterior à guerra, segundo dados de 2025. A situação é agravada pelo colapso do sistema de saúde, elevando os riscos de complicações durante a gravidez e o parto.
Além disso, meninas casadas precocemente enfrentam maior exposição à violência física, emocional e sexual. Em 2025, adolescentes representaram 12% dos casos registrados de sobreviventes de violência de gênero nos territórios palestinos ocupados.
A crise também afeta profundamente a saúde mental dos jovens. De acordo com o relatório, quatro em cada dez apresentam sintomas de depressão ou ansiedade moderada a grave, enquanto 61% demonstram sinais de transtorno de estresse pós-traumático. Cerca de 70% afirmam não se sentir seguros em seu cotidiano.
O cenário é agravado pela interrupção da educação, perda de familiares e falta de oportunidades econômicas, fatores que aumentam ainda mais a vulnerabilidade de meninas e adolescentes.
Como resposta, o UNFPA ampliou suas ações na região, criando espaços seguros para meninas, oferecendo apoio psicológico, orientação e capacitação. A agência também fornece assistência financeira a famílias vulneráveis e distribui kits de higiene e dignidade para mulheres e meninas deslocadas.
Para expandir essas iniciativas, o UNFPA estima precisar de US$ 20 milhões adicionais, dentro de um programa humanitário mais amplo de US$ 110 milhões destinado à recuperação de Gaza — dos quais apenas US$ 10 milhões foram recebidos até agora.

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