Foto: Acnur
Por Fernanda Paraguassu
Editora de MiRe
Após mais de mil dias de guerra no Sudão, o conflito segue causando sofrimento em larga escala para milhões de crianças e famílias. Ao menos 9,5 milhões de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, incluindo mais de 5 milhões de crianças, muitas delas repetidamente, acompanhando o avanço dos combates e a insegurança constante, segundo o UNICEF. Mais da metade da população depende de ajuda humanitária para sobreviver, consolidando o Sudão como a maior crise de deslocamento infantil e uma das emergências humanitárias mais graves do mundo.
Infância sob ataque
Nos primeiros meses de 2026, ao menos 245 crianças foram vítimas diretas da guerra, sendo 160 mortas e 85 mutiladas. O número representa um aumento significativo em relação ao ano anterior, de acordo com o UNICEF.
Grande parte dessas vítimas foi atingida por ataques com drones, o que evidencia o impacto crescente de novas formas de combate sobre a população civil.
Desde o início do conflito, milhares de violações graves contra crianças foram registradas, incluindo mortes, ferimentos, recrutamento forçado e violência sexual. O acesso limitado a áreas afetadas indica que os números reais podem ser ainda mais altos.
Fome, doenças e colapso de serviços
A crise humanitária se aprofunda em múltiplas frentes. Em 2026, cerca de 4,2 milhões de crianças devem sofrer de desnutrição aguda no Sudão, incluindo mais de 825 mil em estado grave, com risco de morte sem tratamento.
A destruição da infraestrutura civil compromete o acesso a serviços básicos. Cerca de 70% das unidades de saúde estão fora de funcionamento. Com a queda da cobertura vacinal, surtos de doenças como cólera, sarampo, malária e dengue se espalham, aumentando o risco de mortes evitáveis.
Ao mesmo tempo, a fome atinge níveis extremos. Milhões de famílias enfrentam insegurança alimentar severa, resultado da violência, do deslocamento contínuo e do colapso econômico.
Educação interrompida
O impacto sobre a educação é profundo e duradouro. Mais de um terço das escolas estão fechadas no país, enquanto outras foram transformadas em abrigos ou ocupadas por grupos armados. Na prática, quase metade das estruturas escolares deixou de funcionar como sala de aula.
Hoje, ao menos 8 milhões de crianças estão fora da escola, o que aponta para uma crise geracional com efeitos que podem se estender por décadas.
Deslocamento em massa e pressão regional
A guerra no Sudão se tornou a maior crise de deslocamento do mundo. Milhões de pessoas foram forçadas a fugir, muitas delas mais de uma vez, à medida que a violência se desloca pelo território.
A maioria dos deslocados permanece dentro do país ou em nações vizinhas, que já enfrentam suas próprias dificuldades. Esse fluxo pressiona serviços básicos, agrava crises locais e amplia a instabilidade regional.
Crianças deslocadas enfrentam obstáculos adicionais para acessar educação, saúde e proteção. Muitas estão separadas de suas famílias e vivem em condições precárias, sem acesso a apoio psicossocial.
A voz sudanesa e a urgência de um cessar-fogo
Para a ativista sudanesa Hala Al-Karib, diretora da organização regional SIHA, a guerra não pode ser resolvida apenas pelas forças armadas.
Em análise publicada pela Al Jazeera, ela defende um cessar-fogo que garanta proteção à população e permita acesso a serviços básicos. Também aponta a necessidade de um processo político mais amplo, com participação da sociedade civil e de diferentes grupos que compõem o país.
A avaliação é de que a população busca condições mínimas para retomar a vida com segurança e dignidade.
Opinião MiRe
Por que o Brasil precisa falar sobre o Sudão
Embora distante geograficamente, a crise no Sudão tem implicações que ultrapassam suas fronteiras.
O Brasil mantém compromissos internacionais ligados à defesa dos direitos humanos e à proteção da infância. Diante de uma guerra que atinge milhões de crianças, posicionar-se faz parte dessa responsabilidade.
O país também participa de instâncias como a Organização das Nações Unidas, onde pode contribuir para fortalecer a pressão por soluções diplomáticas e ampliar a ajuda humanitária.
Os efeitos do conflito são mais intensos na própria região. A maioria das pessoas deslocadas permanece em países vizinhos que já enfrentam crises próprias. Esse cenário evidencia a necessidade de mobilização internacional para apoiar diretamente essas regiões.
Narrativas baseadas no temor de fluxos migratórios globais tendem a reduzir o engajamento de governos e dificultar respostas coordenadas. Isso acaba limitando o apoio justamente onde ele é mais necessário.
A baixa visibilidade de conflitos africanos no noticiário brasileiro também contribui para o distanciamento. Ampliar a cobertura é uma forma de enfrentar essa lacuna e fortalecer a compreensão sobre crises que fazem parte de um cenário global interligado.
Um futuro em risco
Três anos de guerra transformaram a infância no Sudão em uma experiência marcada pela sobrevivência. Sem acesso à educação, expostas à violência e à fome, milhões de crianças crescem em condições que comprometem suas perspectivas de futuro.
Sem cessar-fogo, acesso humanitário e maior financiamento, a tendência é de agravamento da crise. O impacto já é profundo e pode se estender por gerações.

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