Foto: Unicef
Por Fernanda Paraguassu
Editora de MiRe
O Dia Mundial da Água, celebrado em 22 de março, é uma data criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para conscientizar sobre a gestão sustentável dos recursos hídricos, o combate ao desperdício e a garantia de acesso universal à água. Ainda hoje, 2,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável.
A escassez de água não afeta todas as populações da mesma forma. Grupos que já estão em situação de vulnerabilidade (como comunidades rurais, moradores de zonas de conflito e refugiados, especialmente crianças) estão entre os mais impactados. Muitas vezes, são forçados ao deslocamento. Nesse contexto, a falta de acesso à água deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a configurar um mecanismo de exclusão social.
É cada vez mais evidente que, em diversas regiões do mundo, a água tem sido transformada em instrumento de poder e, em muitos casos, de guerra. Seu controle revela disputas políticas, desigualdades estruturais e estratégias de dominação.
Historicamente, a água foi usada como arma de guerra, tanto de forma direta (destruindo infraestrutura) ou indireta (bloqueando acesso). Em contextos contemporâneos, temos os exemplos da Guerra do Golfo, da guerra civil na Síria (desde 2011), a invasão do Iraque, o conflito no Iêmen (desde 2014), e a guerra entre Rússia e Ucrânia. Em todos esses casos, o impacto recai principalmente sobre civis, reforçando a ideia de que controlar a água é também exercer poder sobre populações.
Na guerra mais recente entre Israel e a Faixa de Gaza, iniciada em 2023 e marcada por graves consequências humanitárias, o acesso à água evidenciou relações assimétricas de poder. Antes do conflito, a maior parte da água consumida em Gaza vinha da própria região. Com os bombardeiros, grande parte da infraestrutura foi destruída. A interrupção no fornecimento de energia e de combustível também impediu o uso de geradores, agravando ainda mais a crise.
Um relatório da organização de direitos humanos do Oxfam apontou que o acesso médio a água chegou a cerca de cinco litros por pessoa, quase um terço do mínimo absoluto para situações de emergência. O Unicef alerto para o risco de morte por sede entre crianças e para o avanço de doenças. Muitas pessoas passaram a caminhar quilômetros em busca de água, frequentemente contaminada. Atualmente, o Unicef e seus parceiros estão fornecendo água potável a mais de 1,6 milhão de pessoas, incluindo mais de 600 mil crianças, em Gaza.
O Irã também enfrenta vulnerabilidades no abastecimento de água em meio à guerra contra Estados Unidos e Israel. Localizado em uma região que depende fortemente da dessalinização, ainda mais sob pressão da indústria petrolífera, o país já lidava com escassez agravada pela queda no volume de chuvas e por falhas de infraestrutura. Acusações de ataques a instalações de dessalinização e danos a infraestruturas hídricas reforçam como esses sistemas se tornaram alvos estratégicos no Oriente Médio.
A destruição de sistemas de abastecimento de água em conflitos armados constitui uma grave violação do direito internacional. As Convenções de Genebra, especialmente a IV Convenção, proíbem ataques contra bens indispensáveis à sobrevivência civil, como fontes de água e infraestrutura sanitária. Esse princípio é reforçado pelo Protocolo Adicional I, que veda ações contra recursos essenciais, incluindo água potável. Além disso, o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais reconhece o acesso à água como parte do direito a um padrão de vida adequado e à saúde. Assim, a destruição deliberada do abastecimento de água viola simultaneamente normas humanitárias e direitos humanos fundamentais, comprometendo a sobrevivência, a saúde e a dignidade da população civil.
Governar pela sede
A gestão da água deixou de ser apenas uma questão técnica ou ambiental e passou a integrar as disputas estratégicas que definem a própria possibilidade de existência de populações inteiras.
A situação na Faixa de Gaza ilustra isso com particular nitidez. Ali a água não desaparece. Ela é mediada. A dessalinização, embora seja uma solução técnica, depende de energia e da circulação de insumos. Já não se trata apenas de quem tem a posse da água. O que está em jogo agora é quem determina as condições que a tornam potável. O poder se desloca da posse para a regulação, uma infraestrutura muitas vezes invisível que regula a vida.
Essa dinâmica pode ser interpretada a partir da noção de biopolítica, conceito formulado por Michel Foucault, segundo o qual o poder se exerce na gestão da vida. A água, nesse sentido, torna-se um meio de regular a existência. E tem um outro ponto nessa história. Quando o acesso à água passa a ser intermitente, condicionado ou estrategicamente restrito, entramos em outro terreno: o da necropolítica, conceito de Achille Mbembe. Nesse caso, não se trata apenas de governar a vida. O foco passou para a exposição de determinados grupos à morte, a decisão de quem pode continuar vivendo em condições viáveis.
Nesse contexto, a separação entre questões políticas e ambientais deixa de fazer sentido. A mudança do clima não é pano de fundo neutro. Secas mais longas, ciclos de chuva instáveis e maior evaporação reduzem a margem de manobra. O que se observa em regiões como o Sahel ou a Síria, vai além de escassez. Ali há uma espécie de sobreposição de crises, em que colapso ambiental e fragilidade política são inseparáveis.
Essa condição também não se distribui de forma aleatória. Algumas populações são sistematicamente mais próximas do limite. Portanto, talvez seja pouco falar apenas em desigualdade de acesso. É preciso também falar de outra dimensão menos visível e compreender como a falta de água atinge certos grupos de forma mais imediata e intensa.
Nesse sentido, a escassez de água não inaugura uma crise: ela revela uma forma de organização do mundo. Expressa uma geopolítica que distribui desigualmente recursos e vulnerabilidades. A água deixa de ser apenas aquilo que falta e torna-se aquilo por meio do qual se governa.
E talvez seja esse o ponto mais desconfortável: não é necessário que a água desapareça para que ela se torne uma arma. Basta que seu fluxo seja controlado.
Leia também sobre migração climática:

0 comentários