Papo sério

Resenha: Hotel Ruanda

por | 17 nov, 2024 | cultura e esporte, papo sério

O filme Hotel Ruanda é baseado na história real de Paul Rusesabagina, gerente de um hotel de uma empresa belga em Kigali, capital da Ruanda. A história do longa-metragem ocorre durante um confronto dentro do país em que o grupo étnico Hutu perseguiu o outro grupo étnico Tutsi. A narrativa se desenrola com o protagonista buscando maneiras de proteger os refugiados tutsis que ele abrigou no hotel.

O filme é dirigido pelo irlândes Terry George, um diretor conhecido por retratar cenários de guerra em seus filmes, como é o caso de A Promessa (2016), Mães em Luta (1996)  e Guerra de Mentiras (1998). Hotel Ruanda foi indicado a três categorias no Oscar de 2005, sendo elas a de melhor ator para Don Cheadle,que interpreta o papel de Paul Rusesabagina no filme; a de melhor atriz coadjuvante com Sophie Okonedo, que atua como a esposa do protagonista, Tatiana Rusesabagina; e por fim, a de melhor roteiro original. 

A história começa mostrando a vida de Paul num momento de tensão antes do conflito armado, o que funciona para mostrar como ele se comporta cotidianamente: um homem muito cuidadoso com sua família que busca evitar problemas e conseguir contatos para possíveis favores no futuro. Contudo, com o desenrolar da história, o personagem vai cada vez mais evoluindo para se tornar o homem que utilizou o seu hotel para abrigar centenas de refugiados.

Assim, um dos principais pontos positivos do filme é a espetacular construção do protagonista, que começa com ele vendo o seu vizinho Victor sendo sequestrado pela milícia Hutu sem reagir para evitar conflitos para sua família, e termina com ele enfrentando o general da cidade para salvar os refugiados tutsis no seu hotel. Além disso, a grande atuação de Don Cheadle enriqueceu o papel do Paul no filme, sendo o ator perfeito para interpretar as nuances emocionais que o personagem sofre na narrativa, tendo que ser calmo e persuasivo em algumas cenas e extremamente emotivo e agoniado em outras.

Paul com sua esposa e filhos. Imagem: Reprodução.

E um dos principais motores para o desenvolvimento do protagonista é a sua esposa Tatiana, interpretada pela atriz Sophie Okonedo, que foi essencial para jogar luz a várias discussões que seriam primordiais para o desenrolar da história. Um exemplo dessa importância ocorre no início do filme. Enquanto Paul está voltando para casa depois do início dos conflitos,  ela faz do seu lar um abrigo para os tutsis da sua vizinhança, praticamente forçando Paul a proteger essas pessoas, e ser tratado como traidor para os Hutu por ter abrigado Tutsis.

Mais um ponto importante da narrativa é a presença da ONU no meio da história, onde ela se apresenta inicialmente como a solução para o conflito através da instauração de um tratado de paz entre os dois grupos. Porém, com a morte do presidente do país e o início do genocídio Hutu, a organização vai se afastando cada vez mais do país, se preocupando apenas com os estrangeiros que estavam em Ruanda e não com as pessoas que estavam sendo perseguidas pela milícia Hutu. Com isso, o filme passa uma mensagem de que o mundo não se importa com a morte de africanos negros e desmistifica a imagem de que as Nações Unidas são os defensores da paz mundial, sendo retratadas como uma instituição que é pautada pelos interesses de um grupo de nações.

Os cenários do filme são uma parte muito interessante, já que os que utilizados pelo filme não são tão diversos assim, mas o longa-metragem utiliza do tempo para que eles se tornem diferentes com a ideia de pré e pós conflito. Um exemplo disso é o centro de distribuição de alimentos, que é introduzido logo no início do filme de maneira normal, e depois ele é apresentado de maneira totalmente distópica, com tutsis encarcerados, armas à mostra e com fogo ateado em alguns locais. Essa escolha torna o filme muito mais fluido e menos repetitivo, adicionando mais significado aos locais em que o filme se passa.

Milícias Hutu dominam as ruas de Kigali. Crédito: Reprodução.

Esse filme é uma experiência real sobre como refugiados em países africanos buscam sobreviver em meio aos conflitos das suas nações. Não é uma narrativa romantizada em que um salvador chega e consegue superar as adversidades. É uma história de sobrevivência de pessoas que foram desamparadas por aqueles que deveriam protegê-las e agora precisam se ajudar para tentar superar as dificuldades impostas pela realidade. 

Hotel Ruanda tem duração de 2 horas e 1 minuto e classificação indicativa de 14 anos. O filme possui muitas cenas de violência, com sangue e ferimentos sendo expostos de maneira explícita, além de fazer menções a crimes sexuais, traumas psicológicos e tráfico humano. O longa-metragem está disponível na Amazon Prime.


Por Bruno Marinho, Rodrigo Carvalho e Tamiris Zapata, estudantes da disciplina de Laboratório de Cidadania, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ministrada pela Profa Fernanda Paraguassu.

Sob supervisão de Fernanda Paraguassu. 

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