Papo sério

Lilian Villanova: a criação de Sifa e Amina

por | 26 jun, 2025 | cultura e esporte, educação, papo sério

“As crianças e os jovens não conseguem ver o horizonte.” É o que compartilha Lilian Villanova, professora, trabalhadora humanitária e autora do livro infantil Sifa e Amina – Uma Vida à Espera, sobre os refugiados no Malawi. No sudeste africano, sem saída para o mar, o país acolhe no campo de refugiados de Dzaleka mais de 50 mil pessoas deslocadas por conflitos em seus países de origem.

Atualmente, Lilian, natural do Rio de Janeiro, faz mestrado em práticas de desenvolvimento internacional na Carolina do Norte, nos Estados Unidos. Ela teve sua primeira experiência no Malawi de forma inesperada, “por um acaso”, como nos disse.

O ano era 2018, e seu marido trabalhava em uma instituição militar, também como professor de Humanas, durante a eleição do ex-presidente Jair Bolsonaro. Devido às preocupações com o avanço da extrema-direita, Lilian e sua família contaram sobre o desejo de sair do Brasil em busca de trabalho humanitário. Foi nesse momento que esbarraram em Clarissa, uma amiga de sua irmã. Ela já tinha feito trabalho voluntário e ficado encantada pelo Malawi.

Foi Clarissa, aliás, que mostrou o campo de refugiados de Dzaleka à Fraternidade Sem Fronteiras. A partir disso, nasceu, no Malawi, o Nação Ubuntu, primeiro projeto da organização sem fins lucrativos a atuar exclusivamente em um campo de refugiados, com pessoas em situação de crise prolongada. Sem hesitar, Clarissa apresentou Lilian e a família à Fraternidade Sem Fronteiras. E aqui, começa a jornada de Lilian pelo sudeste africano.

A ONG promove apoio social a crianças e jovens, por meio da distribuição de alimentos, roupas, cuidados de saúde, educação, formação profissionalizante, entre outros. Naquela época, o objetivo da organização era atender a uma das principais solicitações da população de Dzaleka: a construção de uma escola. “Foi nesse momento que os nossos caminhos se cruzaram”, compartilha Lilian. Uma família de educadores, dispostos a deixar o Brasil para se dedicarem a alguma causa social, bem na inauguração de um projeto singular de educação. “Foi uma situação de estar no lugar certo na hora certa”, brinca.

A expectativa era de uma experiência de, no máximo, um ano e meio fora do Brasil, mas, por conta das demandas, se transformou em cinco anos inteiros no Malawi. Em seu tempo lá, Lilian participou da construção da Ubuntu Nation School, em conjunto com a Fraternidade Sem Fronteiras e a comunidade de pessoas em situação de refúgio em Dzaleka. 

A Escola

Estudantes posam com o uniforme da escola (Reprodução/Fraternidade Sem Fronteiras)

O projeto da escola nasceu a partir das reivindicações lideradas por quatro jovens refugiados, antes de ser abraçado pela Fraternidade Sem Fronteiras. Sobre os pedidos da comunidade por uma escola no campo de refugiados de Dzaleka, a autora reflete:  “A educação é percebida como uma boia salva-vidas, mesmo que pequena. É uma pequena luz no fim do túnel. É uma das poucas formas de sair daquela prisão.”

Seu trabalho na construção dessa unidade escolar abraçou todas as vertentes, desde o trabalho braçal de erguer a estrutura tijolo por tijolo até a elaboração da proposta pedagógica. A professora foi designada à diretoria e ficou responsável pela formação da equipe da escola. Nesse processo, fez questão de que todas as pessoas que trabalhassem na instituição, em contato direto com as crianças e as famílias, fossem de Dzaleka. Para ela, isso é importante para que a escola fosse pensada por pessoas “que têm um conhecimento profundo da realidade daquelas crianças e famílias”.

“Trabalhar com educação nesse contexto foi o casamento perfeito daquilo que eu já acreditava com o lugar onde aquilo era mais necessário”, reflete Lilian, que acredita no poder de transformação social da educação. A escola, para além de educar, era um lugar de proteção para as crianças e os jovens. “Se a criança está na escola, ela não está fabricando e carregando tijolos por longa distâncias, vítima de trabalho infantil.” Além disso, também garante segurança alimentar. Os alunos da Ubuntu Nation School tomam café da manhã e almoçam diariamente na escola. Para muitos deles, segundo a diretora, essas eram as únicas refeições do dia.

Por compreender que o papel da educação na sociedade vai muito além do ensino formal, Lilian se dedicou a aproximar as famílias da escola. Promoveu rodas de conversas com os responsáveis dos alunos para tratarem sobre questões importantes, como, por exemplo, o combate a violência e abuso infantil, e a divulgação de informações corretas sobre a COVID-19 e a promoção da vacinação.

Crianças da Ubuntu Nation School na conscientização contra o abuso infantil (Reprodução/Fraternidade Sem Fronteiras)

A experiência da autora de Sifa e Amina na escola foi um verdadeiro intercâmbio cultural. Ela fez questão de manter diálogo com a comunidade local para deixar a escola com a cara de Dzaleka, com seus costumes e referências, mas não deixou de dar seu toque brasileiro enquanto pedagoga, levando até o forró para as crianças de lá. Ela foi inspirada pelo movimento Quintais Brincantes, projeto pedagógico brasileiro baseado na metodologia apoiada pela UNICEF learning through play (ou “aprendizagem através do brincar”, em tradução livre). Ou seja, o ato de brincar como prática educativa. Assim, levou à escola muita diversão, além de referências às culturas afro-brasileiras e indígenas. “Essa proposta tem muita valia em um contexto de restrição material, porque você precisa de muito pouco para fazer acontecer”, comenta. “Nessa realidade violenta, o aprendizado só pode acontecer através de relações de afeto.”

Lilian veste uma saia em comemoração de festa junina (Reprodução/Acervo pessoal)

Sobre os desafios de ser uma estrangeira nas trocas com a comunidade local, Lilian compartilha que, em um primeiro momento, as famílias não entenderam a proposta pedagógica da escola. “O tempo foi importante para que as famílias pudessem se deixar convencer”, diz. Segundo ela, a herança educacional do Malawi ainda é muito colonial, devido a sua independência tardia. O país só conquistou a independência da Grã-Bretanha em 1964, mais de 100 anos depois do Brasil se declarar livre. Ela explica que, por isso, as escolas ainda são muito tradicionais e repressoras.

Porém, ela enfatiza que “não se trata de chegar e falar que tudo o que vocês estão fazendo é errado”. Na verdade, é um momento que traz uma oportunidade pacífica de apresentar outras formas de educar. No fim, a experiência foi um sucesso tão grande  entre as crianças e famílias, que ela criou um grupo de brincar para atender também as crianças fora da escola.

Estrangeira

Além de toda a jornada na construção da escola, estar no Malawi, por si só, também foi uma vivência muito rica e desafiadora para a família Villanova. “A simples entrada naquele contexto de uma pessoa que não é dali tem um impacto nas dinâmicas locais. Você precisa ter muita humildade, chegar com a intenção de aprender e de ser sensível às diferenças culturais”. 

No Malawi, apesar de morar dentro da escola, ela relata que sentia falta de um contato mais próximo às crianças. Por ser diretora, não estava sempre em sala de aula.  “Mas vira e mexe eu inventava um negócio para estar com elas, dei aula de artes, de música, criamos um festival cultural anual”, compartilha. 

Lilian brinca com as crianças da escola (Reprodução/Fraternidade Sem Fronteiras)

Outro vínculo a ligava ainda mais com à comunidade: o fato de ser mãe de três crianças. Quando saiu do Brasil, Lilian já tinha duas filhas mais velhas. Mas foi durante sua estadia no país africano que teve seu terceiro filho, Amani, um nome na língua suaíli que significa “paz”. Isso fez com que Lilian se aproximasse ainda mais das crianças de Dzaleka, tanto dentro como fora da escola. Estava sempre brincando com elas e seus filhos, que também fizeram amizades com outras crianças, o que fez com que ela pudesse enxergar as relações mais complexas dos pequenos refugiados. “A realidade da pobreza extrema e do estresse crônico é muito violenta para a criança. O estigma está colado à sua identidade, antes de ser quem ela é, é uma refugiada. Existe o preconceito dos malawianos em relação aos refugiados.”

Por fim, ela garante que estar em contato com essa nova cultura foi uma experiência transformadora. “Por cinco anos, a cada dia que eu estive lá, até o último segundo, foram dias aprendendo coisas novas sobre aquela comunidade diversa, multifacetada, de diferentes origens nacionais, étnicas e linguísticas.”

Sifa e Amina 

Capa do livro Sifa e Amina – Uma Vida à Espera
(Reprodução/Editora Chico Chavier)

Foi justamente no contato com as crianças que Sifa e Amina, nomes comuns no Malawi, aparecem na nossa história. Conversando com os pequenos, a autora começou a perceber que algumas falas e alguns temas eram comuns. “Será que as crianças realmente pensam assim, ou estão reproduzindo o que os adultos estão falando?”, se perguntou. No livro, as personagens Sifa e Amina dão vida a esses padrões que Lilian foi identificando nas meninas e meninos de lá em situação de refúgio.

Não são crianças específicas ao mesmo tempo em que carregam um pouco de cada uma delas. “Elas são um resumo do que foi a minha experiência com as crianças de lá”, compartilha. E complementa: “São crianças que se entendem crianças, antes de qualquer coisa. A criança não tem uma tração muito grande pela identidade ‘refugiado’. Ela está sendo criança, mas também sabe que isso está atrelado à realidade dela.”

A escolha de contar a história em um livro infantil veio a partir de sua preocupação enquanto mãe. Como ela sempre buscou no mercado por histórias sobre pautas sociais relevantes para seus filhos, foi fundamental produzir um material sobre a vida das crianças no campo de refugiados, um momento de “espera” para a “vida de verdade” que elas vão encontrar no futuro, num outro lugar. Lendo livros infantis sobre crianças refugiadas, ela encontrou obras sobre as viagens forçadas e sobre a vida de imigrante no país de reassentamento, mas poucas sobre esse momento de “limbo”. A autora optou por focar nesse desejo de sair e se estabelecer em algum país de primeiro mundo, comum entre as crianças de Dzaleka, por ser um diferencial para a literatura infantil.

Ela identificou também uma separação entre as crianças que tinham familiares reassentados em outros países daquelas que não tinham contato sequer com o mundo exterior. “Tudo isso vai alimentando os sonhos daquelas crianças. Tinha um desejo comum de ir para o Canadá, Estados Unidos, mas aquilo não significava exatamente o Canadá e os Estados Unidos. Era quase uma idealização do país do reassentamento.” Aqui, infelizmente, é fundamental dizer que esse sonho dificilmente se torna real. Em 2023, segundo dados da ACNUR, 43,4 milhões de pessoas estavam em situação de refúgio internacional, mas somente 158.700 foram reassentadas. Isso significa que apenas cerca de 0,37% dos refugiados foram reassentados naquele ano.

A escolha de um livro infantil permeia toda a experiência de Lilian. Ela não poderia ter feito um “diário de bordo”, nem um livro reportagem. As crianças protagonizam toda a sua experiência e, por isso, também são donas do que foi produzido a partir dela. A professora e mãe de três filhos entende a infância como uma fase muito importante na construção de um indivíduo, então abordar esse tema dessa maneira se tornou urgente para ela. “Isso faz com que as crianças estejam mais alertas para uma diversidade de realidades e formas de ver o mundo”, afirma. Ela também nos revela que escrever esse livro foi uma experiência de resgate “à Lilian criança, que sempre foi apaixonada por escrever livros infantis.”

Sifa, Amina e todo seu universo ganharam contorno e cores pelas mãos de dois artistas jovens de Dzaleka, Richesse Kabamba e Franck Osumaka. Lilian fez questão de ter dois ilustradores do Malawi, para que eles pudessem contar essa história junto com ela. Além disso, todo o valor arrecadado com a venda do livro retorna à própria comunidade por meio de duas iniciativas: o projeto Nação Ubuntu, da organização Fraternidade sem Fronteiras, e o grupo Kituri, coletivo criado e liderado por refugiados, que defende o direito ao brincar como expressão de liberdade e infância.

O campo de refugiados de Dzaleka

Dzaleka, um dos maiores campos de refugiados da África (Reprodução/Amos Gumulira/AFP)

A pouco mais de 40 quilômetros da capital do Malawi, Lilongwe, o campo de refugiados de Dzaleka é o maior do país. São milhares de pessoas que fogem de conflitos armados, perseguições políticas e violações de direitos humanos. Criado inicialmente como abrigo temporário pelo ACNUR, a agência da ONU para refugiados, o campo se transformou em morada fixa para quem escapou de crises na República Democrática do Congo, no Burundi e em Ruanda. Atualmente, Dzaleka abriga mais de 50 mil pessoas. A superlotação tem levado a condições precárias de vida, ampliada pelas políticas de confinamento dos refugiados por parte do governo malawiano, que preocupam organizações humanitárias como a ONU. Em maio de 2023, centenas de refugiados, inclusive crianças, foram detidos e removidos das cidades e realocados para o campo que já estava acima de sua capacidade.


Por Júlia Pacheco e Caio Azevedo (Alunos da Escola de Comunicação da UFRJ, sob supervisão de Fernanda Paraguassu)

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