Foto: Heriter Makengo Vakata, o Foguinho, da RDC.
A República Democrática do Congo (RDC), um dos maiores e mais ricos países da África em recursos naturais, carrega uma história marcada por conflitos internos, golpes militares e ciclos de violência política que afetam a vida cotidiana da população. Desde a independência, em 1960, o país enfrentou ditaduras prolongadas e intensas disputas por poder, que desencadearam perseguições políticas e ameaças aos direitos civis. Essas dinâmicas complexas levaram milhares de congoleses a buscar refúgio em outros países, incluindo o Brasil.
Nos últimos anos, o Brasil tem se tornado um destino inesperado para migrantes de várias regiões da África, que veem no país uma chance de reconstruir suas vidas longe da instabilidade e do medo. Jonathan Wasato e Heriter Makengo Vakata, ambos da RDC, estão nessa jornada. Enquanto Jonathan chegou ao Brasil fugindo da perseguição sofrida por seu pai, um ex-agente do governo, Heriter, conhecido como “Foguinho,” escapou de ameaças após se manifestar contra a corrupção no país. Em comum, além do exílio, eles compartilham a luta para manter viva sua cultura e tradição em um novo lar, enfrentando as dificuldades de adaptação, mas também encontrando acolhimento e pontos de convergência cultural inesperados com o Brasil.
Jonathan Wasato – Entre Fronteiras e Laços de Sangue
O peso do nome e da herança
Numa sexta-feira, um pai buscava seu filho na escola. Sentado no banco traseiro do carro, pedia, em francês, que o filho fizesse silêncio, para que ele pudesse falar sem interrupções. Jonathan Wasato estava em uma chamada de vídeo pelo celular. Ele fazia o trajeto para sua casa, conversando conosco a respeito de sua vinda para o Brasil, em 2011, fugindo da perseguição que sofria em seu país.
Seu pai, de quem havia herdado o nome, trabalhou no serviço de inteligência do país durante muitos anos, mas a família viu suas vidas em risco após as mudanças políticas. Jonathan tinha cerca de nove anos quando tudo começou.
“Quando tem mudança de regime por meio da guerra ou de golpes militares, todas as pessoas que trabalhavam no regime anterior sempre têm alguma dificuldade, e esse foi o caso do meu pai”, afirmou.
Inicialmente, ele, os pais e os irmãos não saíram do país, já que acreditavam que não tinham feito nada de errado. Em 2006, o pai descobriu que não podia deixar a República Democrática do Congo. Apesar das forças do governo não terem conseguido prender nem matar seu pai, a instabilidade política era muito grande e a família era constantemente submetida a investigações, processos e perseguições.
“Aos olhos do poder, ele era alguém potencialmente perigoso”, disse Jonathan sobre seu pai.
Do improvável ao possível
A situação estava cada vez mais brutal e perigosa, então seu pai decidiu que ele e os irmãos precisavam sair do país o quanto antes. As opções naquele momento ficavam entre França ou Bélgica, principalmente por serem países que falavam francês, como eles. Apesar dos processos de visto serem muito complexos, esse fato não impediu Jonathan e seus irmãos de aplicarem. Para sua família, Jonathan precisava ser um dos primeiros a sair do país, por compartilhar o nome do pai e estar submetido a um nível mais intenso de restrições e perseguições.
Um dia, voltando de uma entrevista de visto na embaixada da França, Jonathan passou pela embaixada do Brasil, onde viu um papel com as condições para solicitação de visto. Lendo os requisitos, Jonathan percebeu que era mais simples do que o processo francês, e acabou preenchendo o formulário de solicitação, mesmo sem muita pretensão de conseguir qualquer tipo de visto. Em cerca de duas semanas, ele conseguiu uma entrevista para obter o visto de turismo. Jonathan optou por não solicitar refúgio, apesar de cumprir com os requisitos da legislação brasileira.
“O pedido de refúgio era mais complexo, ia levar mais tempo e eu tinha medo de me expor. Era mais fácil ‘eles’ saberem se eu pedisse refúgio”, disse.
Sua mãe, mesmo não estando mais fisicamente presente, influenciou sua decisão de vir para o Brasil. A mãe tinha lindas memórias de quando visitou o país e sempre contava para o filho como os brasileiros tinham sido divertidos e acolhedores.
Quando perguntamos sobre sua chegada ao Brasil, Jonathan conta que, no início, se sentiu bem sozinho. A maioria de seus familiares e amigos foi para a França, e ele veio para cá sem nenhum parente. Apesar disso, relata que já tinha tido a experiência de estar sozinho em outro país, já que estudou na África do Sul durante algum tempo.
“Eu tinha chegado de uma situação complicada e qualquer coisa seria melhor, qualquer situação que eu não estivesse me sentindo perseguido. Aqui, eu não senti a pressão que eu tinha no Congo”.
Adaptando-se em terras estranhas
Jonathan conta que a instituição Cáritas o ajudou bastante. Lá, ele foi acolhido e recebeu informações e orientações sobre documentos necessários. Na própria Cáritas, ele conheceu alguns congoleses e angolanos que viveram situações semelhantes às dele e que também tinham emigrado para o Brasil. Ele nos diz que assim fez amigos e, até hoje, mantém algum tipo de relacionamento com essas pessoas. Jonathan também relata que nunca tinha escutado alguém falar português antes, e que comprou um livro de idiomas no aeroporto, para tentar se preparar.
“Eu (…) sabia que era uma questão de tempo até as coisas melhorarem. A língua foi complicada, mas eu sabia como funcionava, então estava tranquilo.”
No país de origem, ele se formou em biologia, mas com as oportunidades limitadas e suas facilidade com o desenvolvimento do português, passou a atuar como professor de francês, dando aulas no Abraço Cultural, além de oferecer aulas particulares.
Jonathan conta que, por tudo que passou no Congo, se acostumou a estar alerta e viver de uma maneira muito cuidadosa, até desconfiada. Relatou que não podia procurar nenhum psicólogo ou médico lá, por exemplo, tanto por receio desses profissionais passarem alguma informação que o colocasse e colocasse sua família em risco, quanto por um costume cultural, o que ainda se reflete em sua vida.
Durante todo esse processo, ele seguiu em contato com familiares e amigos, quase todos os dias, além de já ter recebido visitas de suas tias. Ele também conta que as pessoas no Brasil foram mais gentis e leves com ele, em comparação com o que viveu na África do Sul e no Congo.
Raízes e futuro
Atualmente Jonathan mora com sua esposa brasileira, Mariana Marinho, e seu filho de quatro anos, Jonathan “Jojo” Marinho Wasato, no bairro de Cachambi, na zona norte do Rio de Janeiro, mas desde que veio para cá ele morou também em Vicente de Carvalho, Nova Iguaçu, Tijuca e São João de Meriti.
Quanto a hábitos, rituais, tradições e culturas no geral, Jonathan nos contou sobre algumas diferenças e semelhanças. Na África do Sul ele teve que mudar bastante sua alimentação, porque muitas coisas que comia no Congo eram difíceis de encontrar na África do Sul ou nem existiam. Ele diz que aqui no Brasil tem praticamente tudo que ele encontrava no Congo, então não precisou promover grandes mudanças nos hábitos alimentares.
Ele adquiriu certos hábitos no Brasil, como, por exemplo, comer feijão a qualquer hora do dia e quantas vezes quisesse. Jonathan relatou que era uma crendice comum entre os congoleses acreditar que isso fazia mal. Quando criança, queria comer feijão todo dia, mas só podia comer cerca de uma vez a cada duas semanas. No momento em que descobriu que poderia comer quando quisesse, ele conta, aos risos, que logo ligou para sua família para contar seu feito.
Jonathan fala com muito carinho sobre a relação com os parentes, a vida na República Democrática do Congo e tudo que herdou culturalmente de seu país. O professor acha importante transmitir o máximo de sua cultura para seu filho.
“Ser congolês tem a ver com uma questão de linhagem, de sangue. Meu filho tem o sangue congolês, eu tenho a obrigação de fazer isso, de passar a cultura do Congo para ele.”
Jojo, seu filho, nasceu durante a pandemia. Jonathan relata que sempre conta histórias tradicionais do Congo para seu filho. Ele diz que gosta de incluir alguns elementos da sua infância ou coisas que lhe contaram ao longo da vida.
Também usa muita música para trabalhar a cultura e os idiomas com o filho. A RDC tem como língua oficial o francês, mas da região de onde Jonathan vem, também fala-se o lingala. Atualmente, o filho estuda em uma escola francesa no Rio de Janeiro, mas o primeiro contato com o idioma foi em casa. Durante a entrevista, presenciamos Jojo falando francês com o pai. Com a mãe, ele fala português.
Remar, remar, remar!
Olelé a corrente é forte
O seu país
O país dele é Kasai
O seu país é o Kasaï
Olelé a corrente é forte
Remem!
Rema, rema, rema!
Olelé a corrente é forte
Benguela está a chegar
Aí vem Benguela
Vem, vem!
O valente, vem, vem!
O generoso
Vem, vem!
Benguela
O corajoso
O generoso
Olelé
Olelé a corrente é forte
Essa é a tradução de uma das músicas que Jonathan canta para seu filho em lingala. Jonathan compartilhou algumas das canções que mostra para seu filho de alguns diferentes canais no YouTube. Esses canais postam músicas em lingala e outros idiomas do continente africano com tradução simultânea para o francês, o que certamente ajuda no aprendizado de crianças multiculturais como Jojo. Além disso, os vídeos são ilustrados com desenhos infantis bem cativantes, explicando a história da música também visualmente.

Jonathan segue ensinando o lingala por conta própria, porque não tem grande disponibilidade de professores aqui no Brasil e Jojo ainda é novo. Por enquanto, o lingala de seu filho ainda é básico – ele sabe responder perguntas simples, mas Jonathan planeja viajar para a RDC no próximo ano, para que o filho conheça mais membros de sua família. Ele acredita que, assim, Jojo poderá praticar com calma e se acostumar mais com o vocabulário.
Heriter Makengo Vakata – Dança, fogo e resistência
Os migrantes da República Democrática do Congo trazem consigo uma forte herança cultural, como vimos com Jonathan. É muito evidente o quão importante as culturas, tradições e os laços de sangue são para eles. Esse também foi o caso de Heriter Makengo Vakata, conhecido como “Foguinho”.
Herança familiar e o chamado da tradição
Na história de Foguinho, a questão familiar também é muito forte. Logo de início ele disse:
“É uma coisa que veio do meu sangue, que me chamou. Eu fui chamado na tradição. Eu respeito e vivo na tradição. Não posso negar minha tradição. Isso é minha identidade, não posso jogar fora minha identidade.”
Foguinho trabalhou a vida toda com arte, quando ganhou seu curioso apelido. Com ensino superior em Arte e Gramática, se profissionalizou em danças folclóricas e tradicionais. Antes, foi mecânico. Sua mãe trabalhou num grupo de danças folclóricas e originárias e seu avô, também. Em sua família, é muito comparado com o avô. Dizem que o jeito dele dançar e sua paixão por cultura e tradição vêm de seu avô.
Foguinho começou a ser perseguido na RDC quando era diretor técnico de um grupo de dança, por causa de uma manifestação pacífica contra a corrupção que tinha acontecido em um concurso. Heriter relata que o problema de corrupção lá era muito difícil e que não podiam criticar nenhum político nem nada do governo.
Entre Angola e Brasil
Depois da manifestação, Foguinho e seus colegas passaram a ser perseguidos e as forças do Governo chegaram a assassinar um de seus amigos. Em 2014 ele fugiu da RDC para Angola. Foi lá que aprendeu português. Heriter passou quatro anos em Angola, onde trabalhou em um grupo de danças tradicionais africanas, como percussionista e professor de dança.
Nesse período, veio três vezes ao Brasil a trabalho. Em maio de 2018, resolveu ficar de vez. Heriter conta que fugiu da RDC por sua segurança, mas que na Angola ainda era muito fácil de ser encontrado.
O recomeço no Brasil
Hoje em dia ele ainda trabalha com danças tradicionais e folclóricas, como cuspidor de fogo e com pirotecnia na rua e em eventos, mas teve que recorrer a aplicativos de transporte para complementar a renda. Foguinho conta que na África conseguia viver só de sua arte.
A irmã dele, que tinha emigrado para outro país da África por conta da crise na RDC, foi quem o ajudou a encontrar pessoas no Brasil. Pela internet, sua irmã encontrou, Daniel Diowo Otshudi, um representante da comunidade congolesa no Brasil, ativista de Direitos Humanos, liderança Internacional pela causa da Migração e do Refúgio e agente social no CRAI Rio. Além da ajuda de Daniel, Foguinho também contou com o apoio e a orientação da ONG Mawon.
Heriter conta que não teve grandes choques de cultura e que se adaptou muito rápido. Ele diz que sentiu falta de casa, mas que como foi bem acolhido, não foi tanto assim. “Sou guerreiro, a vida é assim”, disse ele ao relatar que no geral foi uma adaptação tranquila.
Quanto a questões culturais, Heriter diz que muito do que viu na África, ele vê no Brasil. “O Brasil é 50% África” disse ele ao contar que praticamente não via tanta diferença assim. “O povo animado, o povo que gosta de festa, a comida, a cultura, praticamente não sinto tanta diferença.” Ele relata que no dia a dia consegue manter tranquilamente suas tradições, sua religião e seus hábitos alimentares.
Família e tradição
Em 2023 Foguinho voltou ao Congo para se casar e passou duas semanas por lá revendo amigos e familiares. Ele já conhecia sua esposa, mas não tinha como casar anteriormente dado a vida que estava levando e a situação no país de origem, mas em 2023 ele conseguiu ir lá, se casou e voltou para o Brasil trazendo sua esposa, Ange Basuapele Makengo, que hoje trabalha aqui no Brasil como trancista. Os pais de Heriter tiveram 13 filhos no total, quatro faleceram, então agora ele ainda tem oito irmãos vivos. São quatro homens e cinco mulheres. Atualmente uma das irmãs vive aqui no Brasil também. Ela decidiu vir com Foguinho em 2023.
Com sua esposa Ange, teve um filho aqui no Brasil. Foguinho e Ange querem ensinar para Hamms tudo da cultura congolesa. Acham importante o laço sanguíneo e cultural que o filho sempre terá com a RDC. Heriter conta que querem passar a educação que aprenderam no Congo e que os ajudou a seguir em frente, apesar de todas as adversidades.
Ainda sim, ele acha importante também que o filho aprenda sobre a cultura do Brasil, já que moram aqui, mas sem deixar a caminhada e a história do Congo para trás. Ele diz que o filho tem obrigação de aprender isso e entender tudo que aconteceu, porque a vida é imprevisível e ele precisa saber lidar com o que pode acontecer no futuro.
“As tradições são a nossa identidade. A pessoa que sabe reconhecer suas tradições é uma pessoa muito feliz”.
Foguinho se considera uma pessoa tradicional nesse sentido. Diz que sua vida é a tradição, a junção de tudo que aprendeu com a família ao longo da vida.
“Eu sei a força da nossa tradição. A nossa tradição tem muito poder, muita força, muita coragem“.
Por Júlia Falante e Gabriela Veloso, estudantes da disciplina de Laboratório de Cidadania, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ministrada pela Profa Fernanda Paraguassu.
Sob supervisão de Fernanda Paraguassu.
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