Crianças refugiadas se abraçando – Foto: UNHCR/Shawkat Alharfoush
Cerca de 123,2 milhões de pessoas foram deslocadas à força por causa de perseguição, conflitos, violência, violações de direitos humanos e eventos que perturbaram gravemente a ordem pública em 2024. Desse total, 40% são crianças. É o décimo aumento anual consecutivo e o maior número já registrado até hoje. Dos 123,5 milhões, 73,5 milhões se deslocaram dentro do próprio país. Outros 42,7 milhões cruzaram fronteiras e se tornaram refugiados. Os números estão no relatório Global Trends divulgado neste mês pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).
O Sudão, com 14,3 milhões de refugiados e deslocados internos, tornou-se o país com o maior número de pessoas deslocadas à força no mundo, superando tristemente a Síria (com 13,5 milhões). Em seguida vêm o Afeganistão (com 10,3 milhões) e a Ucrânia (com 8,8 milhões). Esses países combinados representam mais de um terço do número total de cidadãos deslocados forçadamente.

Foto: REUTERS/Dilara Senkaya
O relatório global revelou que, ao contrário da percepção generalizada nas regiões mais ricas, 67% das pessoas refugiadas permanecem em países vizinhos, e que países de baixa e média renda acolhem 73% dos refugiados do mundo. Os países que mais receberam proporcionalmente refugiados foram o Líbano com 12,5% da sua população sendo composta por eles, seguido de Aruba com 11,1%, Chade e Curaçao com 6,25%, e Jordânia com 5,55%.
O documento também reportou casos solucionados de pessoas deslocadas, sendo esses 9,8 milhões de cidadãos que retornaram à sua área de origem, dentre esses, 8,2 milhões foram deslocados internamente e 1,6 milhões eram imigrantes. Com isso, o número de refugiados reassentados em países estrangeiros foi o maior em 40 anos: cerca de 188,8 mil, sem falar que 47,2 mil deles obtiveram a cidadania do país de acolhimento ou residência permanente em 2024.
O Brasil é citado no relatório para falar da situação dos refugiados venezuelanos, em que ele juntamente com Colômbia, Peru, Chile e Equador oferecem refúgio a cerca de 5,9 milhões de venezuelanos que foram deslocados de seu país.
No documento, foram ressaltadas três situações de locais específicos a serem destacadas na seção “Spotlight” do relatório. São eles: Síria, Mianmar e Sahel (que engloba os países de Mali, Burkina Faso e Níger.
Síria:
A guerra da Síria desencadeou uma das mais graves crises migratórias globais, responsável por fazer com que cerca de 25% da sua população fosse obrigada a deixar seus lares. Cerca de 6,1 milhões de pessoas procuraram refúgio em países estrangeiros, especialmente Turquia, Líbano e Alemanha, além de possuir 7,4 milhões de pessoas se deslocando internamente no território sírio.
Com a queda do governo de Bashar al-Assad em dezembro, estima-se que cerca de 500 mil refugiados tenham retornado à Síria e que 1,2 milhão de deslocados internos também tenham retornado às suas áreas de origem. Contudo, devido à insegurança persistente na região e a falta de disponibilidade de moradia, infraestrutura e serviços públicos, a situação ainda é instável no país e a população Síria ainda está suscetível à deslocamentos forçados. Para 2025, estima-se que até 1,5 milhão de sírios refugiados e 2 milhões de deslocados internos possam retornar para o seu local de origem
Por fim, o ACNUR insiste para que os países não repatriem refugiados sírios de maneira forçada, já que os lares de muitas famílias se encontram destruídos devido aos conflitos na região. No caso dessas repatriações forçadas, essas pessoas podem encontrar obstáculos gigantescos para a garantia da sua qualidade de vida.
Mianmar:
A situação em Mianmar continua sendo uma das emergências humanitárias mais graves do cenário global. Até março de 2025, registravam-se 3,6 milhões de deslocados internos no país, enquanto 1,5 milhão de pessoas buscaram refúgio além das fronteiras nacionais. Entre estes, destacam-se os rohingyas, um grupo étnico sistematicamente perseguido, vítima de violência recorrente e de políticas discriminatórias do governo que lhes negam o direito à cidadania, deixando a maioria em condição de apátrida.
Em 2024, cerca de 11,3 mil pessoas tentaram rotas terrestres ou marítimas perigosas – número 74% superior do que o do ano anterior, embora se acredite que esse número possa ser maior. Com isso, infelizmente cerca de 660 rohingyas foram reportados como mortos ou desaparecidos no mar apenas em 2024, a pior estatística desde 2015.
O ACNUR está implementando uma abordagem estratégica baseada nas rotas migratórias para garantir a proteção dos refugiados de Myanmar. Assim, a organização busca fortalecer a coordenação regional com os governos vizinhos; aumentar as capacidades de busca e salvamento marítimo; e assegurar desembarques seguros e oportunos.
Sahel:
O Sahel continua enfrentando uma escalada no número de pessoas deslocadas à força. Até o final de 2024, 3,8 milhões de indivíduos estavam nessa condição na região, um aumento de 58% em relação a 2020. A alta taxa de violência da região juntamente com a instabilidade política faz com que a região seja assolada por problemas econômicos e de insegurança, sendo o local onde se concentra metade de todas as mortes relacionadas ao terrorismo no mundo.
Outro problema que assola a região são os desastres climáticos, já que esses países sofreram com inundações em 2024 que afetaram cerca de 1,5 milhão de habitantes de Níger e 733 mil de Mali. Com isso, devido a esses eventos, estima-se que a população de pessoas que enfrentam fome extrema nesses países aumente em 20%.
Apesar da vontade política demonstrada pelos governos locais, a crise no Sahel exige um aumento imediato de investimentos internacionais, o fortalecimento dos sistemas de proteção regional e a implementação de soluções integradas que combinem segurança e desenvolvimento econômico de forma sustentável.
Por fim, o ACNUR vem sofrendo com cortes no investimento para as suas ações humanitárias, o que pode afetar milhões de pessoas pelo mundo todo. Exemplo disso foi em maio de 2025, em que houve um congelamento por parte dos Estados Unidos da ajuda humanitária que o país proporciona para o ACNUR. Essa ação gerou cerca de 400 demissões de servidores da instituição, e contribuiu para o fechamento de três instalações no Sudão do Sul que atendiam mulheres em risco de violência.
Sem financiamento suficiente, o ACNUR não consegue promover programas de assistência alimentar e abrigo básico para as pessoas deslocadas. Dessa forma, as comunidades que acolhem refugiados também não recebem o investimento necessário para se manter. Com isso, o retorno dessas populações torna-se cada vez mais inviável – e, quando possível, pode ocorrer de forma indigna, fazendo com que muitas retornem à condição de não ter um lar.
Para ter acesso ao relatório completo, clique no link.
Por Rodrigo Carvalho e Tamiris Zapata (Alunos da Escola de Comunicação da UFRJ, sob supervisão de Fernanda Paraguassu)
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