Papo sério

Do silêncio à voz: a jornada de migrantes no aprendizado do português brasileiro

por | 12 nov, 2024 | educação, papo sério

Foto: Blanca Perosa junto com seu esposo e seus dois filhos (Arquivo pessoal) 

O Brasil abriga hoje mais de 1,8 milhão de migrantes e refugiados, conforme dados do governo federal coletados entre janeiro de 2010 e agosto de 2024. Milhares dessas pessoas deixaram seus países em busca de uma vida melhor, enfrentando diversos desafios em sua jornada, incluindo o aprendizado de uma nova língua. Segundo relatório da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), a barreira linguística representa o segundo principal obstáculo para sua adaptação.

Dos dados migratórios disponíveis, o cenário mostra que 682.330 imigrantes são mulheres. Quando analisamos a nacionalidade, a maioria é de venezuelanos, totalizando 493.356 pessoas. Entre as muitas histórias de busca por uma vida melhor, encontramos Blanca Perosa de Hernández, venezuelana de 43 anos. Ela relata que chegou ao Brasil em 2018 como refugiada através da Operação Acolhida e viveu em um abrigo em Roraima até ser transferida para Porto Alegre. Ela menciona que, ao chegar na fronteira com o Brasil, passou dois dias na rua com seu marido e filhos antes de conseguir um local para se estabelecer.

“Naquele momento não tínhamos refúgio lá em Pacaraima, estava tudo começando e não tinha nada ainda. O único refúgio era em Boa Vista, então estava tudo muito recente. Eles estavam abrindo a Operação Acolhida, então ainda tinham que ver como fazer para solucionar os problemas”, comenta Blanca.

Entre as dificuldades que enfrentou ao se mudar para o Brasil, está a barreira entre os idiomas. Fluente apenas em espanhol na época, ela logo percebeu que, ao contrário do que muitos pensam, espanhol e português não são tão semelhantes quanto parecem. “Não, não é parecido em nada. Sim, existem algumas palavras iguais, mas a pronúncia é totalmente diferente. A pessoa pode até estar falando a mesma palavra, mas a maneira de pronunciar e até a escrita são distintas”, explica Blanca.

Apesar dos desafios, Blanca conta que não foi complicado conseguir um emprego. Ela começou trabalhando em uma cozinha, lavando pratos. No entanto, o idioma logo se revelou um obstáculo significativo. Mesmo em uma função aparentemente simples, onde o trabalho físico era predominante, a barreira linguística afetava a comunicação com a sua chefe. “O emprego me fez entender que eu precisava falar português, porque minha primeira chefe me obrigava a falar no idioma. Ela sempre dizia que eu precisava aprender a língua dela, e não falar a minha. Ela falava assim porque, às vezes, eu tentava me comunicar em espanhol. Não achava essas orientações ruins; para mim, ela estava certa. Ela sempre me orientava, tentando me ajudar, até porque ela também já foi imigrante na Nova Zelândia. Às vezes, as pessoas acham essas orientações sobre o idioma negativas, mas eu acredito que o imigrante precisa se adaptar à realidade do país em que está”, diz a venezuelana.

Durante o processo de aprendizagem, a migrante conta que memorizava duas ou três palavras por dia para ir avançando no idioma. “Eu tentava decorar duas ou três palavras por dia, entende? Como já mencionei, eu precisava dizer alguma coisa para minha chefe. Então, no dia anterior, eu procurava como falar o que eu ia precisar. Por exemplo, eu pensava: ‘vou precisar de uma touca, porque comecei como auxiliar de cozinha.’ Aí eu me perguntava: como é que eu falo touca? E gorro, luva, avental? Eu usava luvas, touca e avental. Como eu poderia dizer que precisava dessas coisas? Então eu buscava no celular, na internet, no Google”, explica Blanca.

Para Blanca, quanto antes o migrante entender que a realidade em que está inserido agora não é a mesma de antes, mais fácil será adaptar-se à cultura local. “O que você pensava quando estava no seu país de origem não é a mesma coisa no país para onde você se muda, entende?”, diz ela. Blanca ainda encoraja outros migrantes a se dedicarem ao aprendizado do novo idioma, apesar das dificuldades e do medo: “Aprender um novo idioma não vai tirar sua identidade ou mudar quem você é. Você veio para lutar por algo e, com certeza, ama sua pátria.”

Uma perspectiva masculina da migração

Do total de 1,8 milhão de migrantes no Brasil, cerca de 1 milhão são homens, em grande maioria oriundos de países como Bolívia, Haiti e Venezuela. Isso ocorre pela oportunidade de serviços considerados braçais, que exigem esforço físico e habilidade técnica, onde a demanda por mão de obra é alta, conforme dados divulgados pelo Valor Econômico.

A busca por uma vida consolidada trouxe o nigeriano Mustapha Olanrewaju Amao, de 50 anos, há 18 anos para a cidade de São Paulo. “O governo federal da Nigéria não paga bem comparado ao que ganhamos aqui no Brasil, não tínhamos dinheiro para fazer um curso superior. Em relação à assistência do bolsa família, é uma coisa rara lá (Nigéria) e com dificuldades para que você consiga. Aqui está bem simplificado para que você ganhe”, conta Mustapha ao comparar as duas realidades.

“Por exemplo, no Brasil, em relação a curso superior, tem técnico, tecnológico, tem FAETEC, tem SISU e o ENEM, na Nigéria não tem nada disso”, completa.

Ao estabelecer-se no país, o nigeriano esbarrou com oportunidades que traçaram seu caminho para realizar tudo o que não era possível no seu território de origem. Suas primeiras ações foram realizar o curso profissionalizante em computação, obter a sua Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e tornar-se instrutor de formação de condutores, através do curso para instrutor de trânsito. Essas possibilidades não apenas auxiliaram na melhoria de sua comunicação, mas também permitiram o seu ingresso na graduação de Direito.

Entretanto, nem tudo foi simples. Mustapha relata os desafios enfrentados ao longo do caminho: “Eu chegava na padaria para comprar pão e todo mundo dava risada da minha fala. Eu apontava para as coisas e dizia ‘esse’, ‘esse’, ‘esse’, tipo, ‘esse aí’, já que não sabia o nome das coisas. Foi aí que eu coloquei na minha cabeça que ia aprender o português.”

Além disso, a interação diária como condutor de ambulância respondendo a situações de emergência e como transportador de frota de ônibus por cinco anos consecutivos facilitou a integração da língua. O hábito de assistir a novelas e realizar a repetição de palavras não compreendidas ao serem pronunciadas pelos atores também foram estratégias eficazes para Mustapha. Para o nigeriano, a combinação de aulas formais e experiências práticas contribuíram significativamente para seu aprendizado do idioma.

Mustapha Amao (Arquivo pessoal)

Um projeto que transforma vidas

Aprender um novo idioma é apenas um dos desafios que migrantes e refugiados enfrentam para reconstruir suas vidas no Brasil, mas é um passo fundamental para a integração social e a construção da autonomia. Felizmente, Blanca e Mustapha encontraram apoio em uma iniciativa: o Projeto Identidades – Cultura Global em Movimento. Lançado em 2020 e idealizado pela jornalista Adriana Sangalli, o projeto é pautado no trabalho voluntário e oferece um espaço seguro de aprendizagem para migrantes e refugiados, por meio de cursos e capacitações gratuitos. Até outubro de 2023, já havia beneficiado mais de mil pessoas diretamente e mais de 6 mil indiretamente, de mais de 30 nacionalidades.

Blanca e Mustapha participaram em 2021, quando as aulas eram realizadas apenas virtualmente, devido à pandemia. Para Mustapha, o curso foi um grande apoio: “Não é todo mundo que tem dinheiro para pagar um curso desse e no final ainda ganhar um certificado. O meu certificado é o meu orgulho, ele fica pendurado na parede da minha casa”. Ao ser perguntado sobre as aulas, disse: “Se eu pudesse dar uma nota de 0 a 100, eu daria 101”.

Para Blanca, as aulas também fizeram bastante diferença no seu aprendizado de português e o destaque era que elas não focavam somente no ensino da gramática: “As aulas eram leves, tinham piadas e você entendia também a cultura brasileira”. Outro ponto positivo para Blanca era que não havia uma imposição para que os alunos falassem o português perfeitamente: “A professora não dizia ‘você tem que falar assim’, ou ‘você não está falando corretamente'”.

E esse era o objetivo do projeto segundo Adriana: “Seguimos a visão de Darcy Ribeiro de que existem muitos Brasis e a linha paulo freireana no sentido de que todo estudante já detém um conhecimento e a gente não está ali para dizer o que é certo e errado, a gente está para compartilhar”. “Entendemos eles não apenas como estudantes, mas sujeitos detentores de conhecimento capazes de ensinar também. É um lugar de valor e de respeito pelo desconhecido, não apenas às pessoas, mas a tudo o que elas trazem e representam, a suas ancestralidades”, complementa. Para a jornalista, respeitar o sujeito que já vem com saberes e traz sua cultura, seja pela maneira de se expressar e até de compreender o mundo, também é uma forma de trabalhar a cidadania.

Mais do que o ensino da língua, o Projeto Identidades se configura como espaço de acolhimento e de troca cultural. “Hoje a gente fala em curso de Língua Portuguesa, Interculturalidade e Cidadania, porque a gente entende que o espaço é muito mais de compartilhamento de experiências do que só de ensino do português”, conta Adriana. “Nossas aulas promovem um espaço de acolhimento afetuoso, com diálogo e integração de culturas. Consequentemente, desconstruindo o que é aparentemente diferente para abraçar o que é profunda e verdadeiramente semelhante”, complementa.

Para Maristela Farias, professora que deu aula para Blanca e Mustapha, o maior impacto também não é o idioma: “Acho que tudo que a gente trabalhava nas aulas eles podiam encontrar na internet – aulas melhores inclusive. O impacto mesmo é cultural e de inclusão social”. A professora tem um ex-aluno que frequentemente interage com ela nas redes sociais e nem sempre escreve gramaticalmente correto, mas isso não a incomoda. Pelo contrário, ela valoriza essa conexão: “Ele diz ‘professora’ e em seguida escreve algo errado. Talvez algumas pessoas vão dizer ‘poxa, ela deu aula para ele há tantos anos e ele ainda escreve assim’, mas para mim o que mais importa é o legado que deixei em sua vida”. Maristela complementa: “Ele fala para mim que eu o ensinei a viver no Brasil. E isso é o mais importante – impactar a vida de uma pessoa para que ela se sinta segura e veja em você alguém em que possa confiar”.

Turma de português do segundo semestre de 2021 no Projeto Identidades. Estão presentes na foto Mustapha Amao, Maristela Farias e Caroline Simões, monitora da aula. (Arquivo pessoal)

Leia mais sobre a história da professora Maristela Farias e sua trajetória dando aulas de português para migrantes e refugiados. 


Por Caroline Simões, Milene Gabriela, Frederico Vidal, Gustavo Becker e Jean Carlos de Souza, estudantes da disciplina de Laboratório de Cidadania, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ministrada pela Profa Fernanda Paraguassu.

Sob supervisão de Fernanda Paraguassu. 

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