Papo sério

Desinformação e xenofobia: a educação na quebra do ciclo nas escolas

por | 24 jun, 2025 | educação, papo sério

Delegados na convenção nacional do Partido Republicano em Milwaukee em 17 de julho. Fotografia: Brian Snyder/Reuters.

Em 2022, um crime de xenofobia chocou o Brasil: o caso do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, que foi assassinado em um quiosque na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Em resposta a esse caso, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) se comprometeu com a criação de um Observatório de Violência Contra Imigrantes, mas o projeto não avançou. Segundo os dados mais recentes da ONG Safernet, o número de denúncias de xenofobia na internet cresceu 252% entre 2022 e 2023, e esse número está em ascensão desde 2020.

Na raiz de grande parte desses casos de xenofobia, assim como qualquer forma de preconceito, está a desinformação – narrativas distorcidas sobre os imigrantes, frequentemente retratados como ameaças e não como indivíduos com histórias, famílias e sonhos.

Nos Estados Unidos, o crescimento da xenofobia tem sido impulsionado por uma onda de desinformação que atinge diretamente comunidades imigrantes – especialmente latino-americanos, árabes e africanos. O discurso do atual presidente norte-americano, Donald Trump, tem sido marcado por declarações infundadas e estigmatizantes, como a associação generalizada entre imigração e criminalidade, e  a alegação de que imigrantes ameaçam a segurança nacional. Essa retórica preconceituosa tem moldado não apenas decisões de políticas migratórias, mas influenciado a percepção pública.

No Brasil, a desinformação também alimentou a xenofobia, principalmente nos estados do norte que receberam um grande fluxo de imigrantes venezuelanos. Rumores infundados – como o de que as crianças venezuelanas são portadoras de doenças ou estão envolvidas em roubos – têm circulado amplamente, aumentando o estigma. Essas narrativas, fortemente carregadas de medo e desinformação, legitimam atitudes hostis, aprofundando a exclusão social.

A história de Fatou N’Diaye, filha de imigrantes senegaleses, chamou a atenção para casos de xenofobia nas escolas do Brasil. Hoje, ela é ativista e fundadora da Afrika Academy e tem se destacado por seu trabalho. No entanto, ela também é lembrada pela agressão racial que sofreu em 2020, quando colegas de turma do Colégio Franco Brasileiro, no Rio de Janeiro, publicaram mensagens racistas e xenofóbicas em um grupo de WhatsApp. Diante da falta de atitude do colégio, seus pais optaram por transferi-la para outra escola.

Esse caso reflete a persistente violência racial e a desinformação que alimenta atitudes xenofóbicas em ambientes educacionais. Em entrevista à BBC, Fatou disse que “os espaços virtuais ganham cada vez mais importância em nossas vidas. Podemos usar isso para conscientizar sobre racismo e direitos humanos, além de divulgar experiências que às vezes não chegam até você necessariamente por meio da imprensa”.

De acordo com a psicologia social, o medo do desconhecido desempenha um papel crucial na formação de atitudes preconceituosas. A Hipótese de Contato, proposta por Gordon Allport, sugere que a ignorância e a falta de interação entre diferentes comunidades favorecem a suspeita e a hostilidade. Segundo essa teoria, o contato entre pessoas de grupos distintos pode ser uma ferramenta poderosa para reduzir o preconceito. Quando realizado de forma adequada, esse contato promove uma maior compreensão, diminui estereótipos, e aumenta a empatia. No entanto, nem todo tipo de interação é eficaz. Contatos superficiais ou negativos podem, na verdade, intensificar os preconceitos existentes.

Um dos lugares em que o impacto é mais sentido é nas escolas, onde as primeiras noções de “nós” e “eles” começam a ser formadas. Quando crescem expostas a estereótipos negativos sobre imigrantes, as mensagens se cristalizam em preconceitos duradouros. É justamente na infância que essas ideias começam a se enraizar: de acordo com o artigo publicado pela academia americana de pediatria, crianças podem internalizar vieses raciais entre os 2 e 4 anos de idade. Por isso, a co-autora do artigo, Jacqueline Dougé, defendeu em entrevista ao New York Times que conversas francas sobre raça e diversidade devem começar ainda na educação infantil, antes mesmo de a criança entrar em contato com discursos de ódio.

Proposta da UNESCO

Assim como as escolas podem se tornar um terreno fértil para a exclusão, elas também têm o potencial de serem instrumentos poderosos para desmantelar crenças xenofóbicas. Visando o combate ao racismo nas escolas, a UNESCO propõe ampliar a variedade de histórias e narrativas incluídas nos materiais educacionais, realizar uma revisão minuciosa do conteúdo educacional existente, capacitar os educadores com ferramentas e conhecimentos para lidar com o racismo de forma eficaz em sala de aula e empoderar os alunos com habilidades para analisar criticamente os conteúdos.

A contação de histórias e o compartilhamento de experiências reais de imigrantes pode acabar com os estereótipos e criar empatia. Dinâmicas de integração entre colegas também são importantes para incentivar uma interação direta e positiva. Além disso, a educação midiática é fundamental, ou seja, ensinar os alunos a questionar as fontes e verificar os fatos ajuda a evitar a disseminação da desinformação.

Um exemplo de destaque é a Escola de Ensino Fundamental Infante Dom Henrique, em São Paulo, Brasil. Reconhecida pela UNESCO por suas práticas inclusivas, a escola integra crianças de diversas origens linguísticas e culturais, incluindo aquelas que falam árabe, espanhol e português. Por meio de educação bilíngue, intercâmbios culturais e uma forte política antidiscriminação, a escola cria um ambiente onde, tanto os alunos imigrantes possam se sentir bem-vindos, quanto os alunos locais aprendem sobre diferentes culturas desde cedo.

Quando as crianças entendem quem são os imigrantes – por que eles se mudam, com o que contribuem e quão semelhantes são a eles mesmos – é menos provável que absorvam narrativas baseadas no medo. Escolas como a Infante Dom Henrique mostram o que é possível fazer quando a educação é usada não apenas para ensinar leitura e matemática, mas também para criar empatia e inclusão.

Em uma época em que a desinformação se espalha rapidamente, ensinar às crianças a verdade sobre a imigração pode ser uma poderosa ferramenta para garantir que a próxima geração escolha a empatia em vez do preconceito e a inclusão em vez do medo.


Por Júlia Aguiar (Aluna da Escola de Comunicação da UFRJ, sob supervisão de Fernanda Paraguassu)

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