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Pensatas sobre migração e refúgio na infância e adolescência

Por Fernanda Paraguassu

A vida sobre os escombros

por | nov 12, 2023 | viu isso? | 0 Comentários

Leio sempre os textos da Dorrit Harazim em O Globo. Costumo terminar a leitura dizendo para mim mesma “eu queria ter escrito isso”. Sei que jamais faria como ela, tão incrivelmente certeira, objetiva, com afeto nas entrelinhas das informações.

Neste domingo, Dorrit trata da dificuldade de imaginar que, “das toneladas de escombros e da terra agora arrasada em Gaza, possa brotar, algum dia, alguma flor”. Ela lembra das papoulas vermelhas usadas até hoje nas lapelas da comunidade britânica no dia 11/11 para homenagear seus soldados tombados em guerras.

A escolha da papoula como símbolo da dor e perda brotara dos campos de batalha de Flandres. Soldados teriam relatado que a terra fora revirada de tal modo que sementes de papoulas dormentes começaram a florescer por toda parte.

Por isso, Dorrit afirma que, com a guerra de Israel aos terroristas do Hamas entrando no segundo mês em uma terra que já estava arrasada por conflitos anteriores, seria difícil imaginar alguma flor brotando ali.

“Por ora, cada bebê palestino nascido em meio ao caos – a fugas, bombas, carências desumanizantes – poderá, se conseguir manter-se agarrado à vida, ser considerado uma papoula. Os mais de 240 reféns em mãos do terror palestino desde o ataque de 7 de outubro também. Ambos simbolizam a teimosia humana em sobreviver a seu pior inimigo, o próprio ser humano”, escreve Dorrit.

Além dos textos de Dorrit, sugiro o documentário Nascido em Gaza, do cineasta ítalo-argentino Hernán Zin, disponível na Netflix com legenda em espanhol. Filmado logo depois dos ataques que sofreu em 2014, o documentário – que ganhou o Prêmio Goya, o mais importante do cinema espanhol – mostra como a violência mudou a vida de crianças palestinas.

Dez crianças dão depoimentos, evidenciando os traumas deixados pela guerra. O filme apresenta estatísticas que dão conta que 40 mil crianças palestinas precisavam de ajuda psicológica, naquela época. No ataque de 2014, 70% das mortes foram de crianças com menos de 12 anos.    

Há cenas em câmera lenta. Como se fosse para dar um tempo para o espectador processar e refletir sobre tudo aquilo a que está assistindo.

Depoimentos de muito sofrimento para gente tão pequena. “Gostaria de poder ir ao colégio sem ter medo, igual a gente normal. Viver como os outros meninos do mundo… Muitas vezes penso em nossa situação e não vejo uma saída”, diz um menino.

A paisagem de total destruição. “Passaram três meses desde que nossa casa foi bombardeada e nada aconteceu. Não podemos reconstruir a casa porque não temos dinheiro e porque os israelenses não deixam entrar material de construção”, diz outro menino que visita os escombros da casa e relembra onde ficava cada cômodo.  

Escombros é o que seguimos vendo hoje nas imagens de Gaza. Concordo com Dorrit. Se o mundo não fizer nada urgentemente, muito difícil imaginar que daqueles escombros voltará a brotar alguma flor.   

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