Papo sério

A Copa dos migrantes?

por | 18 jun, 2026 | cultura e esporte, papo sério

Imagem: Marc Guéhi, nasceu na Costa do Marfim, defende a seleção da Inglaterra / The Sun

Por Gabriel de Lannoy

Dentro de campo: uma Copa plural

A Copa do Mundo 2026 começou neste mês de junho e com um caráter singular: é a maior Copa da história. Quarenta e oito países de seis continentes diferentes substituem o formato anterior, de 32 seleções. Também é a primeira vez que três nações — Estados Unidos, México e Canadá — sediam simultaneamente o torneio.

A pluralidade se manifesta até mesmo dentro das próprias seleções: quase um quarto dos jogadores convocados — cerca de 289 dos 1.248 atletas — nasceram em um país diferente daquele que defendem em campo. No total, jogadores nascidos no exterior são majoritários em oito das 48 seleções do Mundial. Em algumas seleções esse índice é avassalador — 96% dos jogadores de Curaçao nasceram fora da ilha, assim como 85% do elenco da República Democrática do Congo e 73% de Marrocos.

O caso marroquino ilustra bem esse fenômeno. Na partida de abertura contra o Brasil, os onze titulares escalados pelo técnico nasceram fora do país e foram formados no futebol europeu — exceção apenas para o goleiro Yassine Bounou, nascido no Canadá, mas criado esportivamente em Marrocos. A reportagem da CNN Brasil lembra que o país soma mais de cinco milhões de emigrantes pelo mundo, principalmente na Espanha, na França e na Bélgica, reflexo direto da diáspora norte-africana. Outro símbolo é Cabo Verde: com apenas 600 mil habitantes, o pequeno país insular passou a depender de atletas nascidos ou criados na Europa para alcançar uma classificação improvável ao Mundial — há 20 anos, a seleção nem disputava as eliminatórias.

Décadas de fluxos migratórios, colonização e a globalização levaram à grande proporção de duplas nacionalidades que, além disso, foram possibilitadas por flexibilizações recentes nas regras de elegibilidade da Fifa. Até o início dos anos 2000, a entidade vetava qualquer troca de seleção após a estreia oficial de um jogador, mesmo em categorias de base. A pressão das federações do norte da África — capitaneada por Mohamed Raouraoua, ex-presidente da federação argelina —  resultou na reforma de 2003, que passou a permitir a mudança de nacionalidade esportiva para atletas com dupla cidadania que ainda não tivessem disputado partidas oficiais pela equipe principal.

“Não achávamos justo que jogadores de origem africana fossem convocados para seleções de base europeias e depois nunca recebessem uma oportunidade na equipe principal”, afirmou Raouraoua à Reuters. “Ter esses jogadores é um enorme benefício para muitas seleções africanas. Isso melhora todo o produto do futebol.” Alguns casos são os de Pierre-Emerick Aubameyang, Frédéric Kanouté, Kalidou Koulibaly e Declan Rice — que se formaram em categorias de base de outros países antes de optarem pela seleção com a qual têm vínculo familiar.

Kalidou Koulibaly, nasceu e jogou nas categorias de base da França, defende a seleção do Senegal

Diversos estudos tentam medir o impacto dessa diversidade dentro de campo. Entre os fatores observados, a migração pode fortalecer as seleções nacionais ao expandir a base de recrutamento de atletas e aumentar a complementaridade de habilidades dentro das equipes.

Não se trata só de jogadores nascidos fora

O fenômeno dos jogadores migrantes não se resume apenas aos atletas nascidos no exterior. Há também a chamada segunda geração de imigrantes — filhos de quem migrou e nasceram já no novo país, mas que carregam dupla identidade cultural. A França, campeã de 2018, segue como o exemplo mais citado: 12 dos 23 convocados tinham pais africanos, reflexo direto dos laços coloniais e pós-coloniais do país com o norte e o oeste do continente. Paradoxalmente, a seleção francesa também é a maior “exportadora” de jogadores desta Copa: 74 atletas nascidos em solo francês defendem outras seleções em 2026, incluindo Argélia, Haiti, Senegal, Costa do Marfim e Marrocos — entre eles, Luca Zidane, filho de Zinédine, que escolheu jogar pela Argélia, país de origem dos avós paternos.

Luca Zidane, nascido na França, defende a seleção da Argélia / Reprodução Instagram

A seleção inglesa também conta sua própria história migratória: além de Marc Guéhi, nascido na Costa do Marfim, ao menos nove jogadores têm um dos pais nascido no exterior, a maioria com raízes em antigas colônias britânicas na África e no Caribe — herança dos padrões de migração para o Reino Unido após a Segunda Guerra Mundial. Do outro lado, 24 jogadores nascidos na Inglaterra hoje representam outras seleções no torneio, incluindo Escócia, Estados Unidos, Nova Zelândia e Gana.

Os próprios Estados Unidos, anfitriões da maior parte dos jogos, são também exemplo dessa mistura. Na vitória de 4 a 1 sobre o Paraguai na estreia, três dos quatro gols americanos saíram dos pés de Folarin Balogun, nascido nos EUA por uma circunstância quase acidental: a mãe, grávida e de viagem para os Estados Unidos, foi impedida de embarcar de volta ao Reino Unido, onde a família residia. Outros jogadores da seleção americana também carregam ascendência migrante: Mark McKenzie é filho de jamaicanos, Ricardo Pepi tem parentes mexicanos e Cristian Roldan possui raízes salvadorenhas e guatemaltecas.

Assim, se até mesmo o país-sede Estados Unidos conta com jogadores de dupla nacionalidade, seria essa a “Copa dos migrantes”?

Fora de campo: exclusão

Essa pergunta toma outro contorno quando consideramos que, ao mesmo tempo, e a poucos quilômetros dos estádios, o governo dos Estados Unidos, conduz a mais agressiva política anti-imigração das últimas décadas. Deportações, prisões, e torcedores, árbitros e jornalistas barrados nas fronteiras americanas mostram a contradição que é o fio condutor desta Copa: o evento que mais depende da circulação livre de pessoas é sediado, em sua maior parte, por um país que tornou essa circulação uma arma política.

Uma apuração do BBC World Service, com dados do Departamento de Estado americano, mostrou que torcedores de mais de um quarto dos países classificados para o Mundial enfrentam proibições de viagem, restrições mais rígidas ou altas taxas de rejeição de visto para entrar nos Estados Unidos. Onze das 48 seleções participantes têm taxa de rejeição de visto superior a 40% — Senegal, Gana, República Democrática do Congo, Irã, Jordânia, Argélia, Haiti, Egito, Cabo Verde, Uzbequistão e Equador —, sendo que no Senegal a recusa supera 70%. Quatro países — Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim — estão na lista de restrições de viagem do governo Trump, o que impede seus cidadãos de obter o visto de turismo recomendado pelas próprias autoridades americanas para quem vai à Copa.

A desigualdade no acesso já começa no tipo de visto disponível: 42 países, majoritariamente os mais ricos, participam do programa de isenção que permite solicitação on-line por cerca de US$40 — e nenhum país africano está nessa lista. Para os demais, o visto recomendado custa US$185, exige entrevista presencial e, em muitos casos, meses de espera. Diferentemente das últimas quatro edições do torneio — África do Sul, Brasil, Rússia e Catar —, que criaram regimes especiais de visto para torcedores, os Estados Unidos não estabeleceram nenhum processo específico para a Copa. A Fifa desenvolveu o chamado “Fifa Pass”, que prioriza o agendamento de entrevistas consulares para quem já comprou ingresso, mas o mecanismo acelera o processo sem aumentar as chances de aprovação.

Histórias individuais tornam esses números tangíveis. O torcedor iraquiano Abdulla Adnan comprou ingressos para acompanhar sua seleção — apenas a segunda participação do país em um Mundial — mas viu os serviços consulares dos EUA no Iraque serem suspensos após a escalada do conflito regional entre Washington e Teerã. Viajou à Jordânia em busca de uma entrevista alternativa, gastou cerca de US$1.800 no processo e foi informado, ao chegar, que a embaixada americana ali não poderia emitir visto para não cidadãos jordanianos. Desistiu.

O caso mais simbólico, porém, talvez seja o do goleiro cabo-verdiano Vozinha. Estrela da histórica estreia da seleção, que arrancou um empate surpreendente com a Espanha, ele chorou após a partida porque sua mãe não pôde estar no estádio: o governo americano havia incluído Cabo Verde, em janeiro, na lista de países cujos cidadãos precisam depositar uma caução reembolsável de até US$ 15 mil antes de viajar aos Estados Unidos, somada à taxa de visto. “Choramos porque minha mãe não pôde vir por causa do visto. Como tivemos que pagar pelo visto, não conseguimos processá-lo a tempo”, disse o jogador. O episódio chegou ao Congresso americano: o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, pediu publicamente ao secretário de Estado, Marco Rubio, que interviesse para garantir à mãe de Vozinha a chance de assistir ao jogo seguinte do filho.

Os EUA no tratamento de imigrantes

A política migratória dos Estados Unidos não afeta apenas quem tenta entrar no país para a Copa — ela também atinge comunidades imigrantes já estabelecidas em solo americano, e o futebol amador tem se tornado, segundo organizações de direitos humanos, um cenário recorrente dessas operações. Um relatório da Human Rights Soccer Alliance, divulgado dias antes do início do torneio, identificou ao menos 17 pessoas ligadas a eventos de futebol — jogadores, treinadores e familiares de atletas — detidas pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) desde o início de 2025, parte delas posteriormente deportada.

A lista de episódios constrangedores envolvendo delegações estrangeiras é extensa. Recentemente, houve o caso do árbitro somali Omar Artan — considerado o melhor da África e primeiro representante do país a ser convocado para um Mundial — teve a entrada negada ao desembarcar em Miami, mesmo portando visto válido e credenciamento oficial da Fifa. A Somália está entre os mais de 30 países submetidos a proibições de viagem pelo governo Trump. Numa tentativa de amenizar as inúmeras críticas que repercutiram, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, disse publicamente: “Não controlamos tudo. Temos que respeitar o fato de que não somos os reis do mundo, não controlamos governos; somos uma organização esportiva (…) O que aconteceu com o árbitro é lamentável.”

Outro caso foi da seleção do Senegal, submetida a uma revista na pista do aeroporto de Raleigh, na Carolina do Norte — cena amplamente divulgada e classificada como degradante por observadores, em contraste com o tratamento dado a seleções de países mais ricos. Dias antes do torneio, a delegação do Uzbequistão passou por revista corporal, inspeção de bagagens e cães farejadores em Nova York, em procedimento que o próprio Ministério das Relações Exteriores do país pediu para a Fifa explicar, já que a seleção adversária, a Holanda, não foi submetida ao mesmo protocolo.

Agravante: a Copa em contexto de guerra

Diante da Guerra entre Estados Unidos e Irã, a seleção iraniana enfrenta o cenário mais extremo: impedida de se hospedar nos EUA mesmo jogando em solo americano, a equipe precisou se instalar no México e cruzar a fronteira no mesmo dia de cada partida — rotina que compromete preparação e recuperação física dos atletas. O time também teve 18 mil ingressos retirados pela federação, sob justificativa de segurança, e viu vistos para membros da comissão técnica e até jornalistas iranianos serem negados. Segundo o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, esse conjunto de episódios — somado ao perfilamento racial e à vigilância migratória — “corre o risco de lançar uma sombra sobre o torneio”.

Para a advogada internacional Marta Mitico Valente, especialista em direito migratório, a sequência de episódios constrangedores não viola, tecnicamente, o direito internacional – afinal, prevalece a soberania dos Estados Unidos para definir suas próprias regras de entrada. O problema, segundo ela, é a falta de planejamento da Fifa diante de um cenário de restrições amplamente conhecido com antecedência. “Não que eu tenha qualquer simpatia pelas restrições, mas, sob o ponto de vista eminentemente legal e migratório, eram medidas que uma assessoria deveria ter prevenido. Não deveriam ter feito Copa nos Estados Unidos considerando essas restrições”, afirmou em entrevista à Agência Pública, publicada pelo Brasil de Fato.

Valente defende que a Fifa deveria ter negociado, antes da escolha da sede, uma espécie de “zona neutra” migratória para garantir trânsito livre a jogadores, comissões técnicas, árbitros e torcedores durante o período do torneio — prática que, segundo ela, jamais foi proposta formalmente ao governo americano. A advogada também chama atenção para a contradição econômica da política migratória: “Há dificuldade para encontrar mão de obra, contratar profissionais, para as próprias empresas americanas, que às vezes buscam profissionais em outros países (…) O país tem se fechado bastante, e isso vai impactar a economia estadunidense.” Sobre o simbolismo da Copa nesse contexto, é direta: “É uma pena muito grande que uma festa tão bonita como a Copa do Mundo, que é uma soma de nações, um momento de congraçamento das ações, comece dividida, com retaliações, divisões, excluindo nações.”

O paradoxo como protagonista

A Copa do Mundo de 2026 talvez seja, então, o retrato mais nítido já produzido de uma contradição estrutural do nosso tempo: o mesmo país que se beneficia, dentro de campo, da circulação histórica de pessoas — afinal, boa parte do talento que hoje defende a camisa americana é filho de imigrantes ou de circunstâncias migratórias — promove, fora de campo, uma das políticas de imigração mais duras de sua história recente, além de casos vexatórios no tratamento com imigrantes durante não só a Copa, mas todo o governo Trump.  “Para organizar com sucesso um evento dessa magnitude, é preciso ser um anfitrião acolhedor (…). Não se pode organizar um dos eventos internacionais mais importantes do mundo e, ao mesmo tempo, proibir a entrada de quase um quarto do planeta”, diz a ativista coordenadora de políticas do Comitê de Serviço dos Amigos Americanos, Yarelis Méndez-Zamora, resumindo o impasse à imprensa em Miami:

Enquanto a bola rola nos estádios, celebrando justamente a diversidade que a migração trouxe ao futebol mundial, organizações internacionais temem que o espetáculo que precisa das pessoas, vire também palco de exclusão. A Copa de 2026 pode, assim, ser lembrada tanto pelos gols marcados pelos filhos da diáspora, quanto pelas famílias que não puderam estar presentes para vê-los.


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