Blog

Pensatas sobre migração e refúgio na infância e adolescência

Por Fernanda Paraguassu

“Escutar é um gesto político”, diz Rima Awada Zahra

por | mar 7, 2026 | viu isso? | 0 Comentários

Conheci a Rima Awada Zahra quando descobri os livros infantis que ela escreveu com a Cassiana Pizaia. Malaika, força do Congo, O Haiti de Jean e Layla: a menina síria estão na Estante dos livros recomendados pela MiRe. O Instagram tem dessas maravilhas da vida. Faz a gente se conectar com pessoas especiais. E Rima é uma delas.

Professora e coordenadora da pós-graduação em Psicologia e Migração da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Rima dedica sua trajetória acadêmica a compreender as relações entre migração, educação e saúde mental. Tradutora das obras Sumud em tempos de genocídio, da psiquiatra palestina Smah Jabr, e Diários de Gaza, publicadas pela Editora Tabla (aliás, a editora das queridas Laura di Pietro e Ana Cartaxo, que tem pérolas em forma de livros) ela defende que as migrações contemporâneas exigem novas formas de escuta — éticas, históricas e politicamente situadas.

Na semana passada, tive a oportunidade de participar de uma aula incrível da Rima sobre “Descolonizar a escuta: migração, mundo e éticas do cuidado”, em que ela afirma que “escutar hoje é um gesto político.” Ela resume o desafio colocado para profissionais da saúde, da educação e para a sociedade diante de um mundo marcado por deslocamentos forçados em escala sem precedentes: “Podemos escolher como escutar. E essa escolha é uma forma de responsabilidade”, afirma.

Segundo a pesquisadora, migrações e mudanças climáticas são dois dos temas definidores do século XXI. Ao mesmo tempo em que mobilizam solidariedade, também expõem divisões profundas no mundo. “O deslocamento forçado, incluindo o climático, é profundo e crescente”, afirma.

Hoje, mais de 122 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas. Para Rima, esse movimento não pode ser entendido como escolha ou mobilidade voluntária. “Não estamos falando de um deslocamento espontâneo. Estamos falando de um sintoma de um mundo fraturado.”

Além das guerras, o clima já provocou cerca de 250 milhões de deslocamentos na última década. Pessoas fogem de conflitos armados, mas também da fome que vem depois, das ondas de calor, das secas prolongadas e das inundações. Nesse cenário, atravessar fronteiras passa a ser menos uma decisão e mais uma consequência de estruturas globais que produzem expulsão.

Quando o mundo se torna traumático

Rima chama atenção para um desafio central da saúde mental contemporânea: os modelos tradicionais de escuta já não são suficientes para compreender a experiência de pessoas deslocadas.

“Muitas das dores não cessam porque o contexto traumático não terminou”, explica.

Guerras prolongadas, racismo estrutural, burocracias migratórias e exclusão social fazem com que o trauma não seja apenas um evento do passado, mas uma realidade contínua. Nesses casos, diz a psicóloga, o próprio mundo se torna o agente traumático.

Por isso, pedir que refugiados simplesmente “superem e sigam em frente” pode funcionar como uma forma sutil de silenciamento.

A pesquisadora exemplifica com situações comuns no cotidiano de famílias migrantes: uma criança refugiada que muda de escola três vezes no mesmo ano ou um adolescente que cresce traduzindo documentos e processos para os pais.

“Isso não é apenas sofrimento psíquico individual. É uma política que atravessa o corpo”, afirma.

Descolonizar a escuta

Diante desse cenário, Rima propõe o que chama de descolonizar a escuta. Para ela, não se trata apenas de ampliar a empatia.

“Descolonizar a escuta não é ouvir com mais sensibilidade. É ouvir com responsabilidade histórica.”

Isso significa reconhecer que experiências migratórias são atravessadas por relações de poder, desigualdades globais e legados coloniais. Nesse sentido, uma escuta que se pretenda neutra torna-se não apenas insuficiente, mas impossível.

A escuta, diz a pesquisadora, é sempre uma posição ética, definida pelas narrativas que escolhemos sustentar e pelas estruturas que decidimos enxergar ou ignorar.

A pressa de entender

Em seu depoimento, Rima também provoca uma reflexão sobre a forma como lidamos com crises humanitárias e imagens de sofrimento que circulam diariamente.

“Talvez o problema que temos hoje não seja falta de informação. Talvez seja a pressa em entender.”

Segundo ela, algumas imagens, especialmente aquelas vindas de zonas de guerra ou deslocamento, não pedem interpretação imediata.

“Tem imagens que não pedem interpretação. Elas pedem tempo.”

Para a psicóloga, tentar organizar rapidamente aquilo que nos desorganiza pode reproduzir outra forma de violência: a tentativa de fechar, domesticar ou explicar aquilo que ainda está em ruínas.

Escutar o sintoma — e o sistema

O grande risco, conclui Rima, é tratar o sofrimento migrante apenas como questão clínica individual.

“Escuta-se o sintoma, mas não se escuta o sistema.”

Diante de um mundo marcado por deslocamentos massivos, mudanças climáticas e conflitos persistentes, ela defende que profissionais da saúde, da educação e das políticas públicas desenvolvam letramento intercultural para compreender essas experiências.

Porque, como lembra a pesquisadora, o contexto que produz o trauma continua operando. E sem reconhecer essa dimensão estrutural, qualquer tentativa de cuidado corre o risco de transformar novamente a dor em silêncio.

Por Fernanda Paraguassu (Editora de MiRe)

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *