Papo sério

2026, nova desordem global e a infância migrante

por | 20 fev, 2026 | comportamento e saúde, educação, marco legal, papo sério

Foto: Halima e sua filha na clínica em Al-Azaz, Sudão, onde ela foi diagnosticada e tratada de desnutrição. Foto: Mohammed Abdulmajid para o IRC.

O mundo vive uma “Nova Desordem Global”, que amplia as crises humanitárias e atinge as crianças migrantes de forma desproporcional. O alerta é do relatório Emergency Watchlist 2026, divulgado pelo International Rescue Committee (IRC), que identifica os países com maior risco de agravamento humanitário e analisa as principais tendências globais.

Segundo o relatório, há uma divergência perigosa em curso: enquanto as necessidades humanitárias aumentam de forma acelerada, o apoio internacional está encolhendo. Para crianças e adolescentes em contextos de migração e refúgio, essa combinação significa mais deslocamentos, maior exposição à violência, interrupção escolar e sistemas de proteção fragilizados.

O que é a “Nova Desordem Global” e por que ela importa

De acordo com o IRC, a ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial, baseada em cooperação multilateral, normas compartilhadas e proteção de civis, está se desintegrando.

A chamada “Nova Desordem Global” é caracterizada por rivalidades geopolíticas ampliadas. Há um número crescente de atores competindo por influência, a formação de alianças instáveis e o chamado “multialinhamento”, no qual governos e grupos armados negociam apoio com diferentes parceiros conforme interesses circunstanciais.

Nesse contexto, a diplomacia baseada em regras e cooperação de longo prazo cede lugar a acordos transacionais imediatos, enquanto normas internacionais de proteção se enfraquecem. O resultado, segundo o relatório, é a erosão da cooperação global justamente no momento em que crises simultâneas exigiriam respostas articuladas e coordenadas.

A Emergency Watchlist 2026, que é a lista de países que exigem atenção prioritária por estarem em alto risco de agravamento humanitário, aponta cinco tendências críticas:

1. Conflitos atingem níveis recordes desde a Segunda Guerra Mundial

O mundo registra mais conflitos ativos do que em qualquer momento desde a Segunda Guerra Mundial.

1 em cada 7 pessoas vive sob ameaça direta de conflito armado.

Os conflitos são mais prolongados, mais letais e mais difíceis de resolver diplomaticamente.

Para crianças, isso significa recrutamento forçado, deslocamento repetido, traumas e ruptura prolongada de vínculos comunitários.

2. Ajuda humanitária encolhe enquanto necessidades crescem

O relatório destaca que os Estados Unidos, historicamente o maior doador global, reduziram significativamente o financiamento humanitário. Outros grandes doadores, como Reino Unido, Alemanha e França, também diminuíram seus orçamentos.

Apenas 25% da ajuda global chega aos países frágeis que concentram metade da população em extrema pobreza.

Fome severa e desnutrição lideram causa de morte em crianças nos países crise. (Foto: Mohammed Abdulmajid para IRC)

O IRC estima que os cortes podem resultar em milhões de mortes evitáveis até 2030, incluindo centenas de milhares de crianças menores de cinco anos.

3. Fome em níveis emergenciais

37 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar em nível de emergência.

A maioria está nos países da Watchlist. A fome atinge de forma desproporcional crianças, elevando taxas de desnutrição aguda e comprometendo desenvolvimento físico e cognitivo.

4. Deslocamentos forçados batem recorde histórico

O deslocamento forçado atingiu 117,3 milhões de pessoas em 2025.

Sudão e Gaza ilustram a velocidade e a escala da crise atual. (IRC)

Conflitos como os do Sudão e de Gaza ilustram a velocidade e a escala das crises atuais. Mulheres e crianças compõem a maioria dos deslocados, muitas vezes obrigados a fugir repetidamente.

Para crianças migrantes, isso significa trajetórias mais longas, maior exposição a tráfico e exploração e incerteza prolongada quanto ao acesso a direitos básicos.

5. Crise climática agrava instabilidade

Inundação no Sudão do Sul. (Foto: Adrienne Surprenant para o IRC)

Eventos climáticos severos, como secas prolongadas e enchentes, estão se tornando mais frequentes e intensos. Países já fragilizados por conflitos enfrentam impactos adicionais na segurança alimentar e nos meios de subsistência.

O financiamento para adaptação climática permanece insuficiente.

Os países mais afetados em 2026

O relatório lista 20 países com maior risco humanitário. Entre os mais impactados estão:

  • Sudão
  • Gaza (Territórios Palestinos)
  • Afeganistão
  • Iêmen
  • Síria
  • República Democrática do Congo
  • Haiti
  • Etiópia
  • Mianmar
  • Somália

Os países da Watchlist concentram apenas 12% da população mundial, mas representam 89% das pessoas em necessidade humanitária e quase 50% das pessoas em extrema pobreza.

O que muda para crianças e adolescentes migrantes?

A combinação entre conflitos prolongados, retração da ajuda e erosão das normas internacionais tem efeitos diretos sobre a infância em mobilidade:

. A maioria dos deslocados recentes é composta por mulheres e crianças;
. Cortes em programas de saúde afetam vacinação, nutrição e atenção materno-infantil;
. Interrupções prolongadas na educação ampliam desigualdades futuras;
. Rotas migratórias tornam-se mais perigosas;
. A fragilização de normas internacionais reduz garantias de proteção a refugiados e solicitantes de asilo;
. Sistemas nacionais de acolhimento enfrentam maior pressão com menos recursos.

Em um cenário de menos cooperação internacional, crianças migrantes tornam-se ainda mais dependentes de políticas públicas nacionais, que, em muitos contextos, também estão sob pressão.

Recomendações: há saídas possíveis?

O International Rescue Committee aponta três caminhos centrais:

  1. Priorizar diplomacia inclusiva e desmontar economias de guerra que lucram com conflitos;
  2. Reforçar a proteção de civis, trabalhadores humanitários e refugiados, reafirmando normas internacionais;
  3. Redefinir o sistema de ajuda, com financiamento previsível e foco em intervenções de alto impacto nos contextos mais frágeis.

O relatório enfatiza que as crises não são inevitáveis, mas dependem de escolhas políticas.

Por que isso importa para o debate sobre infância e migração

A “Nova Desordem Global” descrita pelo IRC não é apenas um rearranjo geopolítico. É um contexto que redefine as condições de proteção, acolhimento e integração de crianças migrantes e refugiadas.

Em um cenário de menos cooperação internacional e menos financiamento humanitário, políticas nacionais tendem a se tornar mais restritivas, enquanto as rotas migratórias se tornam mais perigosas.

Para pesquisadores, jornalistas e formuladores de políticas públicas, o desafio é duplo: compreender a transformação estrutural do sistema internacional e, ao mesmo tempo, produzir dados e análises que tornem visíveis as experiências específicas de crianças e adolescentes em mobilidade.

O alerta do International Rescue Committee é claro: as crises estão se intensificando. A resposta dependerá de vontade política, cooperação internacional e compromisso com a proteção de direitos, especialmente daqueles que têm menos poder de reivindicá-los.

Por Fernanda Paraguassu

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