Coletivos e espaços culturais pelo país oferecem oportunidades para que migrantes transformem suas histórias em criação.
A antiga Hospedaria de Imigrantes do Brás deixou de ser apenas o ponto de chegada de imigrantes em busca de novas oportunidades no Brasil para se tornar algo ainda maior. Hoje, o prédio do século XIX abriga um dos principais centros de diálogo cultural do país: o Museu da Imigração de São Paulo. Localizada no bairro da Mooca, a instituição é hoje uma ponte entre a memória das migrações e as expressões artísticas de quem continua cruzando fronteiras em busca de novas oportunidades.
Segundo uma pesquisa realizada pelo Itaú Cultural em parceria com o Datafolha, a participação dos brasileiros em atividades culturais online dobrou durante a pandemia. Esse movimento pode ter tido influência no surgimento de novos espaços de troca, criação e expressão artística, especialmente entre grupos historicamente marginalizados. Embora o Museu da Imigração seja uma das referências mais relevantes nesse cenário, com mais de 30 anos dedicados à promoção da arte e cultura migrante, ele não está só: em diversas regiões do país, surgem coletivos que unem arte, identidade e denúncia social a partir da vivência imigrante.
“Nossa dor não é arte”: denúncia e protagonismo

Autonomia, protagonismo, resistência e identidade. Esses são alguns dos pilares que sustentam a atuação de mulheres que transformam sua história em arte. O termo “cholita”, historicamente usado de forma pejorativa para se referir a mulheres indígenas na Bolívia, ganha novos significados nas mãos do Coletivo Cholitas da Babilônia, formado por mulheres indígenas andinas que vivem em comunidades periféricas no Brasil.
O grupo ganhou projeção nacional em 2024, ao reagir à exposição Oficina do Suor, realizada na Galeria Prestes Maia, em São Paulo, que exibia fotografias feitas pelo auditor-fiscal e fotógrafo Sérgio Carvalho, retratando mulheres bolivianas em condições precárias de trabalho. O que era apresentado, supostamente, como um registro sensível da exploração da mão de obra imigrante acabou sendo percebido por muitas como uma estetização do sofrimento.
A resposta veio em forma de performance e manifesto. O movimento “Nossa dor não é arte”, encabeçado pelas Cholitas da Babilônia, promoveu uma intervenção performática na abertura da exposição, com cartazes, megafones e vestimentas tradicionais. O ato denunciava o voyeurismo cultural, a fetichização da pobreza e a falta de voz das mulheres retratadas.
A frase virou lema, bordado, nome de um documentário lançado em fevereiro de 2025 e de um manifesto assinado pelo coletivo. “Como qualquer pessoa, nós só queremos ser donas da nossa narrativa e a nossa narrativa é coletiva”, explica Jaci Aymara, 32 anos, artesã e moradora da comunidade do Tabajara. Embora ela não integre formalmente o coletivo, a artista atua em rede com outras mulheres andinas e reforça que, para ela, a arte é fonte de renda mas também uma forma de conexão ancestral e política. “Arte é dignidade, e é digno para todo ser humano o direito de falar por si”, defende.

O manifesto publicado pelo coletivo deixa claro que a crítica vai além daquela exposição específica. “Somos contra todo tipo de ação que fomente a imagem negativa que já existe no imaginário da sociedade brasileira e reforce estereótipos contra a população indígena, racializada e em deslocamento [imigrante], inserida no trabalho de confecção na cidade de São Paulo”, diz o documento.
Além de protestar, as Cholitas produzem arte em escolas públicas, oficinas e em espaços culturais. Em 2024, marcaram presença na Bienal de São Paulo com a intervenção Yo Estoy Aquí, performance que misturava música indígena, cartazes de denúncia e vestimentas festivas andinas.
No Brasil, onde mais de 1,3 milhão de imigrantes vivem atualmente, segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), a arte tem se mostrado um instrumento poderoso de reconstrução e visibilidade. Iniciativas como a do Museu da Imigração e do coletivo Cholitas da Babilônia demonstram que o fazer artístico pode ser muito mais do que expressão. Pode ser abrigo, denúncia e reconstrução de dignidade.
Enquanto algumas instituições ainda insistem em narrar o outro a partir do olhar externo, cresce o número de imigrantes que reivindicam o direito de se auto representar, não como vítimas, mas como criadores.
Por Edilana Damasceno (Aluna da Escola de Comunicação da UFRJ, sob supervisão de Fernanda Paraguassu)

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