Imagem: Crianças em zona de guerra. 14-02-2024.
Conflitos armados colocam em risco o desenvolvimento de milhões de crianças, que enfrentam traumas psicológicos, perda de acesso à educação e riscos à saúde.
Um levantamento divulgado em 2024 pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) estima que mais de 473 milhões de crianças — cerca de uma em cada seis no mundo — vivem atualmente em áreas afetadas por conflitos armados. O número alarmante evidencia o avanço de guerras e crises humanitárias que se alastram por regiões como Sudão, Síria, Iêmen, Gaza e Ucrânia.
Nesses territórios, a infância se torna um conceito abstrato. Entre tendas improvisadas, campos de refugiados superlotados e os escombros do que um dia foi lar, milhões de crianças crescem sem referências de segurança ou estabilidade. Com o futuro marcado pela incerteza, o medo passa a ser companheiro diário. A guerra não destrói apenas estruturas físicas — ela corrói tudo o que é humano: vínculos, afetos, perspectivas. Nessas zonas de conflito, as crianças enfrentam não apenas a ameaça física, mas também o colapso de estruturas essenciais, como escolas e hospitais, comprometendo seu desenvolvimento e bem-estar.
O peso do conflito na infância
Publicado na revista Neuropsychopharmacology, do grupo Nature, um artigo da Universidade de Washington revelou alterações cerebrais em crianças de 6 a 14 anos expostas a traumas. Por meio de exames de imagem, os pesquisadores identificaram que os circuitos neurais responsáveis pelo medo apresentavam disfunções significativas. Durante os testes, ao serem expostas a imagens de perigo e segurança, as crianças traumatizadas não conseguiam distinguir uma situação da outra — como se seus cérebros permanecessem em estado de alerta o tempo todo.

Na Europa, por exemplo, cerca de 24,6 mil crianças refugiadas vivem em campos onde o isolamento social e a instabilidade emocional tornam-se parte da rotina. Esse cenário amplia o risco de desenvolvimento de transtornos mentais como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático. E as consequências não se restringem à saúde mental: a guerra também compromete o acesso à alimentação, tendo efeitos que vão além da desnutrição. Menos de 1% das crianças refugiadas têm acesso a uma alimentação balanceada, o que impacta diretamente o crescimento e o funcionamento cognitivo.
Infância interrompida
Os efeitos da guerra sobre o desenvolvimento infantil têm sido documentados em diversas partes do mundo — inclusive fora de zonas oficialmente reconhecidas como áreas de conflito. No Rio de Janeiro, por exemplo, a violência armada cotidiana também atravessa a infância. Segundo reportagem do jornal Extra, psicólogos alertam para os impactos causados pela convivência com tiroteios e operações policiais em comunidades carentes: traumas psicológicos, dificuldades de aprendizado e problemas de comportamento estão entre as consequências mais comuns.

Esses sinais de sofrimento emocional revelam como a exposição prolongada à violência, seja ela em conflitos internacionais ou urbanos, compromete o bem-estar e o futuro das crianças. No caso das que vivem como refugiadas, esse cenário se agrava: deslocadas de seus países de origem, privadas da estabilidade familiar e da segurança, elas enfrentam um cotidiano marcado por perdas múltiplas e abandono institucional.
A guerra na Síria, que já dura mais de uma década, é um exemplo emblemático. Mais de 5,5 milhões de crianças foram afetadas pelo conflito, com 2,8 milhões fora da escola. Muitas dessas crianças são forçadas a trabalhar em condições precárias para sustentar suas famílias, perdendo não apenas a oportunidade de estudar, mas também a infância e, consequentemente, seu pleno desenvolvimento.

No Iêmen, a situação é similar. Dois milhões de crianças estão fora da escola e muitas se tornam a base de sustento da família, trabalhando ou pedindo esmolas nas ruas. A exposição diária à violência e à instabilidade gera um ambiente de inconstância que afeta o desenvolvimento emocional e psicológico dessas crianças.
Violência silenciosa
Além das perdas tangíveis, as crianças em zonas de conflito enfrentam formas de violência menos visíveis, mas igualmente destrutivas. No Sudão, desde o início do conflito armado em abril de 2023, mais de 12,3 milhões de pessoas foram deslocadas, enfrentando uma grave crise humanitária. A organização Plan International denuncia casos alarmantes de violência sexual contra menores, incluindo abusos cometidos contra bebês de apenas um ano de idade — uma realidade que escancara a brutalidade que atravessa a infância em contextos de guerra.
Em Gaza, a situação é igualmente crítica. De acordo com o Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), até agosto de 2024, mais de 10.600 crianças e 400 professores haviam sido mortos. Nesse panorama, cerca de 90% das escolas estavam danificadas ou destruídas e mais de 800 mil crianças necessitavam de apoio psicossocial e cuidados em saúde mental.

O grito silenciado
A exposição prolongada à violência e à instabilidade não apenas interrompe a educação e o desenvolvimento das crianças, mas também as priva de sonhos e esperanças. Em muitos casos, a infância é substituída por responsabilidades adultas, como sustentar a família ou cuidar de irmãos mais novos. A ausência de apoio psicológico adequado agrava ainda mais a situação, perpetuando um ciclo de trauma e sofrimento.

O caminho para a reconstrução
Diante da complexidade das guerras e de seus impactos prolongados sobre a infância, especialistas alertam que, para a reconstrução, é necessário investimento contínuo em saúde mental, educação e políticas de proteção. Organizações como a UNICEF e a Plan International desempenham um papel crucial nesse processo, oferecendo assistência humanitária, proteção especializada e criando espaços seguros para que as crianças possam expressar seus sentimentos e receber o apoio necessário para superar os traumas vividos.
Enquanto conflitos se arrastam por anos, a infância de milhões é vivida entre deslocamentos forçados, perdas sucessivas e a ausência de referências estáveis. As cicatrizes deixadas por esses processos não se apagam com o fim dos confrontos — persistem nos corpos, nos vínculos familiares desfeitos, na linguagem e no silêncio. E, sobretudo, no tempo roubado de crescer em paz.
Por Letícia Rafaela e Rayssa Queiroz (Alunas de Jornalismo da Escola de Comunicação da UFRJ, sob supervisão de Fernanda Paraguassu)

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