Papo sério

Rohingyas: a infância perdida de um povo silenciado

por | 29 maio, 2025 | educação, papo sério

Crianças rohingyas se reúnem durante distribuição de comida no campo de refugiados em Ukhia, Bangladesh
Foto: INDRANIL MUKHERJEE / AFP

Para as crianças Rohingya, a infância está longe de qualquer definição comum do que seria um começo de vida. Desde o nascimento, elas são lançadas em um cenário marcado por perseguições, deslocamentos forçados e negligência internacional.

Em Mianmar, país do leste asiático de origem desse povo muçulmano, elas são tratadas como inimigas do Estado, mesmo tendo nascido ali. A campanha de “limpeza étnica”, deflagrada pelo exército birmanês em 2017, deixou marcas profundas: milhares de meninos e meninas presenciaram a destruição de suas vilas, os estupros de suas mães e a morte de entes queridos. Muitos escaparam em braços adultos, outros fugiram sozinhos, ainda muito pequenos, carregando traumas que palavras não alcançam.

A perseguição aos Rohingya, no entanto, não começou em 2017. Desde a década de 1980, o governo de Mianmar passou a negar-lhes cidadania, restringindo acesso a educação, saúde e liberdade de circulação. Considerados “estrangeiros” em uma terra onde vivem há séculos, os Rohingya foram empurrados para vilarejos isolados, submetidos a campanhas periódicas de repressão.

A de 2017 foi a mais violenta. Desde então, o cotidiano é de sobrevivência. As crianças levantam antes do sol para buscar água, enfrentam filas por arroz. Frequentam espaços improvisados de ensino e convivem com doenças, abusos e o medo constante de desaparecer. A destruição se aprofundou após o terremoto de magnitude 7,7 que atingiu o país em março de 2025, agravando ainda mais uma realidade já em colapso.

Como alerta relatório da Human Rights Watch 2023, a espiral de violência, fome e desamparo ameaça condenar toda uma geração à invisibilidade.

O êxodo em massa empurrou os Rohingya para os superlotados campos de refugiados em Cox’s Bazar, Bangladesh, onde a violência não cessou, apenas mudou de forma. Em 2022, a ONU alertou que a crise humanitária continua a impactar devastadoramente a vida das crianças. Elas enfrentam não só os efeitos do deslocamento forçado, mas também detenções arbitrárias e abusos sexuais, como documentado pelo Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Crianças Rohingya após chegada à praia de Kuala Parek, Sungai Raya, em East Aceh Regency, Indonésia, 1º de fevereiro de 2024. REUTERS/Stringer

Nos campos, a infância das meninas Rohingya é marcada por violência e medo. Longe do direito à educação, proteção ou ao simples ato de brincar, muitas meninas, inclusive com menos de 10 anos, relatam agressões sexuais recorrentes, tanto durante a fuga quanto já em solo bengalês. A precariedade das tendas e a ausência de segurança facilitam os ataques, que, em sua maioria, não são denunciados.

Em uma cultura onde a vergonha recai sobre as vítimas, o silêncio se torna a única forma de defesa. Como revelou reportagem do The Guardian, de 2017, muitas meninas acabam sendo forçadas a casar-se precocemente, como forma deturpada de “proteger a honra”, perpetuando um ciclo brutal de opressão.

A violência também atinge os meninos. Em 2024, a Human Rights Watch revelou que o próprio exército de Mianmar passou a recrutar forçadamente crianças Rohingya, usando-as como soldados, carregadores ou espiões. Já nos campos de refugiados, grupos armados se aproveitam da vulnerabilidade extrema para cooptar adolescentes, prometendo dinheiro, segurança ou vingança.

O conflito, assim, passa a moldar sua percepção de mundo. Com a infância roubada por traumas e armas, muitos não conseguem mais imaginar um futuro fora da lógica da guerra.

Menina refugiada rohingya carrega bebê em campo de refugiados perto de Cox’s Bazar, em Bangladesh Foto: JORGE SILVA / REUTERS

Outro risco crescente é o tráfico humano. Diante da ausência de documentação e da fragilidade das rotas de fuga, crianças se tornam presas fáceis para redes de exploração sexual, trabalho escravo e servidão doméstica. Em março de 2024, o The Guardian revelou que traficantes chegam a cobrar até 3 mil dólares de resgate por crianças sequestradas.

Todos os meses, dezenas de menores desaparecem dos campos. Sem registros formais, muitos somem sem deixar vestígios, enquanto suas famílias, desamparadas, pouco podem fazer.

O terremoto de 28 de março de 2025, de magnitude 7,7, representou uma nova tragédia para o povo Rohingya. Além de deixar milhares de mortos e destruir infraestruturas, o tremor atingiu em cheio uma população já marcada por décadas de abandono e perseguição.

Em vilarejos precários dentro de Mianmar, casas frágeis desabaram, deixando famílias inteiras desabrigadas. Nas regiões de Sagaing e Mandalay, onde a destruição foi intensa, a ajuda humanitária demorou a chegar, dificultada por bloqueios do regime militar, que mantém controle rígido sobre o acesso a essas áreas.

Nos campos de refugiados em Bangladesh, embora mais distantes do epicentro, o impacto também foi sentido. A vulnerabilidade das tendas de lona e bambu, já ameaçadas por inundações e deslizamentos durante as monções, deixou as famílias ainda mais expostas a riscos de colapso.

O agricultor Rohingya U Than Win, de 68 anos, relatou ao ACNUR: “Nossas vidas estavam melhorando. Agora, o terremoto me fez fugir novamente. Neste momento, todos estão sofrendo, mas entre os afetados, nós somos os piores. Como pessoas deslocadas, nossos problemas são dobrados. Não temos onde morar e nada para viver.”

A situação das crianças é particularmente alarmante. Com o trauma da guerra, abusos e deslocamentos forçados, o terremoto adiciona uma nova camada de medo e instabilidade. A ausência de atendimento psicológico e de serviços básicos de saúde agrava o quadro, elevando o risco de doenças e de deterioração nas condições de vida.

A violência que mais persiste é a omissão. A crise Rohingya se tornou um símbolo da conexão brutal entre perseguição política, colapso ambiental e negligência internacional. Para um povo que teve sua história sistematicamente negada, a infância das novas gerações é apagada dia após dia.

Ignorar essa realidade não é apenas permitir que a infância de milhares de crianças seja destruída, é também negar sua própria existência. A crise Rohingya é uma das grandes vergonhas morais do século XXI. E enquanto o mundo debate protocolos, as crianças lutam apenas para sobreviver mais um dia.

Crianças rohingya seguram cartazes enquanto se reúnem no campo de refugiados de Kutupalong para marcar o quinto aniversário de sua fuga da vizinha Mianmar para escapar da repressão militar em 2017, em Cox’s Bazar, Bangladesh. 25 de agosto de 2022 [Rafiqur Rahman/Reuters]

Ashley Menezes, Lucas Loyo e Wagner Fernando (Alunos da Escola de Comunicação da UFRJ), sob supervisão de Fernanda Paraguassu.

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